República Burraldina


Brasão representativo da amizade entre repúblicas, no caso a argentina e a brasileira.


Lembrei-me de certa conversa que tive com um certo senhor, noutro dia. O nome dele é Jaques Burraldo.


A história dele é bem simples, perceba. Os posts da web dizem que vive ali um certo jornalista, Jaques Burraldo da Silva, que busca incessantemente a exposição total no intuito de ser celebridade. Como a internet é terra sem lei sob o céu da escuridão, frases de 140 caracteres nada dizem.


Aproveitando-se disto, Burraldo da Silva invadiu os lugares-comuns para travar resenhas balofas com outros iguais a ele. No entanto, a velocidade assombrosa com que as mensagens se propagam contrasta em muito com a lentidão dos pensamentos do jornalista. Raciocínios ordinários, mas polidos. Até aqueles das comunidades e redes mais passivas, talvez do tempo em a burrice era coisa mais humilde e apenas colava os seus ouvidos à porta da inteligência arrogante, agora integram-se pela democracia digital.


Verdade que por um lado a internet democratizou para todos o que pensa o intelectual Jaques Burraldo da Silva, dando aos seus leitores tanto o acesso à obra dele como também de expressarem-se sobre ela, porém, do mesmo modo, liberou os seus críticos para insurgirem dos interiores do acaso e de relâmpago. Mas Burraldo apenas julga estes últimos como idiotas. Chega mesmo a pressentir o pior e ter medo da ‘revolução burralda’; contudo, o temor logo passa, ele já se incorporou à rede social em que vive; isto é, copiosíssima e acéfala.


Consta que assimilou tão bem a questão que, por estes dias, tornou-se ferrenho defensor do separatismo. Trama, pacificamente, dentro da lei qual nem mesmo acredita e por certa lista on-line de assinaturas de jovens balofos e superficiais, declarar a 'República Burraldina'; almeja autonomia e independência da federação real, qual esta que ele julga explorar a criatividade virtual. Este "Estado" recente, diga-se, é uma república de gerais; e foi daí que os aliados forjaram o termo "burraldino".


Ora, não pense o leitor que ele desejasse um antispam para mensagens contrárias à nova república dos burraldos. Absolutamente! Apenas deixou que os pensamentos lhe guiassem a esmo, em 140 caracteres; no caso de desenvolver tratado, aí ele lança mão de seu formidável blogue que fica alojado num sítio virtual onde encontram-se vários com a mesma denúncia vazia. Lá Burraldo da Silva é carinhosamente chamado de "Burraldão" pelos amigos e "Burraldinho" pelas queridas amigas, lá ele se sente em casa, compreende que é amado por fortes asnos e grandes blogueiros. Ele percebe, obviamente, o improviso, o arrebatamento, a velocidade da democracia inesperada. Às vezes, acomete-lhe vertigens que logo domina, porém nem sempre conscientemente. O caso é que o burraldino tem auto-controle notável. Sempre diz aos quatro ventos: "bravos guerreiros nos deram a força e a moral...". Bem, o resto é saber que, ainda no final do século XIX, certos sertanistas bandeirantes serviram de sugestão histórica de que o poder deveria emanar de determinado lugar, já que seu povo seria descendente de comandantes natos. Já nos primeiros anos do século XX, o que era sugestão virou política pública na ideia brasileira. "Non ducor, duco".


Se isto vos parecer muito enfático, infeliz leitor, é que nunca lestes as pérolas extraordinárias do jornalista Jaques Burraldo da Silva; mas mesmo aí em seu ciclo deve haver também lá os seus correligionários, não? Uma onomatopéia! Isto, leitor, um grito de lamentação.


Há ocasiões em que o jornalista, adepto fervoroso da onomatopéia, fica também entediado. Nada tem a dizer, nem mesmo em 140 caracteres. O cérebro apresenta-se tão vazio e fugaz como o ambiente onde a própria ideia se manifesta. Neste momento, no entanto, surgem muitos escritos atribuídos a Jaques Burraldo. Ele pensa: “Ué, mas não escrevi isto”. Pensa, porém não materializa isto em expressão pública, deixa que ponderem que foi ele, autor de prestígio, o articulista das correntes mais gloriosas e afamadas no mundo em rede. Gosta de ser amado ou odiado, sabe que é uma celebridade e todos comentam dele e dos pensamentos dele. Quem sabe o falatório não chegue ao sítio onde vive...


Jaques Burraldo da Silva, à noite, recebe muitos cumprimentos. Ultimamente anda recebendo também prêmios e menções pela sua relevância no mundo virtual. Creio que estão escrevendo a biografia dele, e desconfio que numa enciclopédia.


Por Ricardo Novais