Impulso (Des)Humano

Desdemona and Othello, Tales from Shakespeare.Copyright: http://etc.usf.edu/clipart

I -

A dúvida me consumia. Andei pela rua. Jantei fora. Minha mulher me traía, de repente eu tive certeza. Não resposta absoluta, mas tive todos os indícios que vieram da primeira dúvida – se esta confusão mentia um pouco, e é possível que mentisse, não era por mal. Além de que a dor e a vergonha são maiores que o sentimento de ciúme. Madalena enganava-me com o primo. Isto, irrefutavelmente, torna tudo mais obtuso. Ao jantar, eu tomei a decisão. Daria cabo de minha vida. Sim, senhor que lê este triste conto, é caso de honrar-me com meu próprio sangue; não há descrédito maior a um homem que a desonra familiar perante aos vizinhos.


A figura do sangue escorrendo de meus miolos abertos por arma de fogo devolver-me-ia a honra perdida; entretanto, como esta imagem sanguinária trouxe muito asco às minhas mãos, fui à casa farmacêutica. O balconista olhou-me, desconfiei dele. Voltei para minha casa. Entrei ao site da mesma farmácia e solicitei uma droga que me levasse para o além-túmulo. Não pense que foi necessária prescrição médica; oh, não. E, afinal de contas, quem precisa de opinião de um doutor para dormir em sono eterno sem sonhos? Além de que por certo que qualquer doutorzinho com ares positivistas dir-me-ia diagnóstico de cientista arauto: "Não é patológico, meu rapaz, estais a sofrer da síndrome de Otelo". Ora! Eu não precisava de tanta ciência, apenas desejava facilitar o caminho do anjo da capa preta. De modo que na tarde seguinte, chegaram a mim os comprimidos devidamente lacrados e exclusivos; ação tranquila e sem empecilhos de nenhuma autoridade do governo ou de casa de saúde, qual, inclusive, eu indico àqueles leitores que, por ingerência afetiva ou outra grave afetação, estejam ajuizando encontro mais discreto com a morte.

Peguei do envelope contendo a droga e coloquei-o no bolso direito do paletó. Fui à cozinha. Servi-me de caneca de café pela metade, e não muito quente para não queimar a língua. Encaminhei-me, vagarosamente, à saleta que servia de pequenina biblioteca. Descansei a caneca à escrivaninha. Fiquei a olhar para os livros velhos, espantei-me. A ironia apresentou-se diante de coleções de títulos de leis, de decorações, de jardinagens etc. que pareceram uma chamada de volta à vida. Ignorei a repreensão. Levei a mão ao bolso, peguei do pacote e retirei os comprimidos. Amassei-os raivosamente com uma colher pequena até virarem pó branco. Empurrei a substância mortífera todinha para dentro da caneca de café; à mesa não sobrou visível nenhum vestígio do conteúdo esmagado. O café já apresentava aspecto gélido; mas a dose era boa.

Quando encostei a borda da caneca à boca para beber o coquetel letal, desisti. Tive outro medo. O que existe no além-túmulo? Ter medo de ter medo nos dá ainda mais medo... Eu estava nesta consideração metafísica quando Madalena entrou, repentinamente, ao gabinete avisando que o jantar estava pronto.

- Que há?

- Nada.

- Você anda muito estranho estes dias, Pedro... – ela trazia um olhar triste e jogava-o fingidamente, assim o julguei. – Diga tudo, Pedro; diga, diga, diga...

A insistência em dissimular daquela mulher comoveu-me...

II -

Ai, dona leitora, eu tenho certeza que irá julgar-me sórdido e cruel agora; e é possível que o senhor leitor arrepie-se e diga-me coisas feias. Chamar-me-ão: assassino monstruoso! De modo que quase me arrependo de contar-lhes o que fiz, mas digo tudo, vá, que isto é confissão. Tive ideia boa de oferecer à minha querida esposa a caneca de café. Isto mesmo; eu apontei gentilmente um brinde mortal à minha Madalena, a adúltera.

- Quer café?

- Não, já tomei.

- Beba.

- Obrigado!

- Beba, querida, está bom; beba e acalme-se antes de conversarmos.

- Não quero; está frio!

Não julgue, leitor; já disse! Eu era o homem, ela a mulher, e havia ciúmes. Maldito impulso que também é infiel à condição humana! Levantei a cabeça, dei com a figura de Madalena me fitando assustadoramente.

- Que está acontecendo, meu amor?

Eu nada dizia. Meu silêncio era constrangedor até para mim. Ela continuava perguntando, eu continuava mudo. Ela disse-me: tolo, louco, insano; falou que eu fantasiei algo doente que saiu do meu cérebro afetado. Mas não, amiga leitora. Quem dera fosse... Havia algo lá entre meu amor e meu comborço.

O desgraçado do primo dela já estava morto. Morrera três meses antes de desastre automobilístico. Mas a infelicidade era saber que Madalena pensava nele, não como parenta de finado fresco, ela lembrava como quem lamenta a perda do amante. Que vá encontrar-lhe então! Pro diabo com isto!

- Insinua que o traio?

- Não disse nada.

- Tem coisas que não precisam dizer...

- Foi ao cemitério hoje?

- Que tem isto?

- Nada.

- Os mortos não traem, Pedro.

- Mas os vivos, sim!

- Sórdido!... Louco! Está louco, Pedro, louco!

Os olhos dela eram incrédulos. Por fim, com olhar tão triste fingido, de súbito, ela saiu da sala, subiu correndo as escadas e trancou-se em nosso quarto de casal venturoso. Não jantamos. Eu ainda fiquei naquele recinto melancólico por algum tempo, envenenando-me. Ficaria lá toda a noite e o resto da eternidade, mas não. Olhei os livros velhos, escrevi um bilhete sorumbático, peguei da caneca de café e desliguei as luzes. Fui à cozinha e... derramei o café funesto no ralo da pia – sempre haverá sites de farmácias para qualquer eventualidade. Dei às costas, eu tinha a raiva, subi as escadas, pé ante pé, pé ante pé, pé ante pé, bati à porta do quarto, Madalena abriu e eu entrei. Fizemos sexo por quarenta minutos e fomos dormir.

Por Ricardo Novais

* Este conto é a tampa do caixão do livro 'Trem Noturno', Ricardo Novais, Bookess, Brasil, 2010.