Perfumes

Glória à pátria. Charge da Revista Illustrada, novembro de 1889.

Serei sempre um boêmio. Fui alcoólatra, morei nas ruas, tive aspecto horrível, meus cabelos iam até os joelhos, minha barba, rala, até o umbigo. Minhas unhas pareciam garras e em meus braços e pernas, onde os trapos não mais cobriam, a pele chegava a cair em pedaços. Célere envelheceu as minhas células, e demais tecidos. Mas sei que, depois da morte, terei filhos; e os vermes que roerem as minhas frias carnes terão alma. Sou diferente de ti, meu caro amigo, porque a minha história tem poucos dentes; então não me foi possível esconder a minha parca essência. Descobriam-me, mesmo encoberto entre os rigores de uma sorte amargurada. E tudo por não possuir um sorriso belo e um espírito com tintas alegres...

O leitor sabe; o homem que não tem casa não tem lugar na Terra, é um desgraçado. Mas é graças à minha miséria que conheci o mundo. Nunca tive cidade, apenas morei em todas. As ruas, avenidas e praças foram meu haicai; por outro lado, os bulevares mal frequentados e calçadas sem iluminação foram a minha prosa prolixa. Meu romance me valia o cobertor velho que me cobria nas noites frias e a cachaça foi a minha poesia na qual eu escrevi linhas e linhas de desafio à beleza da vida.

Penso que o perfume humano esteja em tudo, e eu já senti a todos. Meu nariz aprendeu a diferenciar o odor nauseabundo das esquinas de ladrilhos do de fragrâncias sofisticadas das mulheres elegantes do lusco-fusco. Fui perito em vida noturna. Insisti em viver entre o álcool e a resignação, foi assim que conheci minha Ema. Amar é viver um doce prazer impossível de se renunciar. No entanto, todo o meu amor não foi capaz de impedir com que o nariz de Ema me trocasse por outros perfumes. Quase morri.

O amor afaga e apedreja. Os sonhos caem na ingratidão e no enterro. E a vida pode ser tão-somente a lama; pois a angústia não vem do caos, como querem os teóricos do apocalipse. A angústia vem do nada.

Mas depois que assassinei Ema tornei a ser um embriagado vulgar, qualquer coisa me servia. Passei a outras drogas, todas elas. De miserável fui a farrapo humano, ou quase-humano. Ali comecei a ser o filho podre da pátria. À noite, deixei cães que latem em suas solidões infinitas cheirarem ao meu corpo tísico e escarrado. Conheceu-me? Prazer, amigo; sou aquele mesmo ninguém da madrugada. À luz do dia deixei-me ser iconoclasta, niilista, marginal e agônico. Quem fui eu em meio à podridão, decomposição e temores desta cidade? Muitos doutores me disseram que eu fui da geração de fracassados, e que foi o vício que presunçosamente me venceu. Isto foi o meu tiro de misericórdia, então procurei a dona morte.

Fui tudo isto que lhe disse, leitor, mas também recuperei-me de tudo. Agora, sou morto. Nome, não tenho passo como alma penada. Dir-me-ia o educador que a vida e a morte não são contrárias, são irmãs bem perfumadas.

Psicografado por Ricardo Novais


***

Uma prece, leitor, à alma dos desgraçados!