Deus perdoa

Paulo, o primeiro dos missionários. Foto Rafael Gomes.

Casei com um homem mais velho, bem mais velho. Casei por interesse. Minha mãe foi a única pessoa que ficou feliz; meu pai me perdeu por causa de dívida, dívida com a máfia italiana ou da roça mesmo. No Brasil é difícil saber de onde vêm as pessoas, somos uma família de expatriados.

Nasci em um sítio perto de Campinas. Aos 9 anos incompletos, fui morar com uma irmã mais velha na cidade. Terminei meus estudos regulares e então me mandaram para São Paulo. Até os 22 anos de idade eu tinha uma vida muito extravagante, dava para caras endinheirados por muita grana e morava bem em um apartamento da Alameda Lorena. Eu era bonita, muito bonita.

Paulo Roberto era velho, muito velho. Amigo de família, lá dos tempos da roça, um dia ele veio em casa e jogou uma maleta com oitocentos mil reais na mesa de jantar e um contrato de casamento. Meu pai estava junto com ele.

- Minha filha querida...

- Saia, papai! Paulo, fique.

Desde então, fiquei ainda mais bonita; Paulo Roberto, ainda mais velho. Meu pai, morto. Graças a Deus. Ele perdia muito dinheiro. Em seu leito de morte, a alma de papai foi pesada em menos de 21 gramas. Minha mãe também já morreu, morreu feliz. Paulo Roberto foi amante de mamãe, talvez por isto ela sabia que ele me faria feliz.

- Emanuelle, meu amor será teu escravo.

- Sim, estou protegida ao seu lado. Obrigada.

Tenho um filho. O filho é do Edu, mas Paulo Roberto pensa que é dele. Que velho burro! Várias vezes ele já me pegou na cama com outros homens e até mulheres, mas só diz: “Deus perdoa”. Paulo não é Deus, é meu pai biológico.

Deus não joga dados fora, diria algum leitor com ares de cientista. Eu acredito em Deus. Por isto não tenho remorso de nada, Deus perdoa tudo. Eu posso trair, enganar, roubar; Paulo pode trair, enganar, roubar e até matar; Deus perdoa, e isto é tudo.

A minha vida é muito boa. Sou uma mulher de 33 anos que não conhece varizes nem limite de cartão de crédito. Encontrei a partícula de Higgs, não vou à igreja, ouço Alice in Chains e tenho hora marcada na sessão de yôga toda manhã. Quando Paulo Roberto morrer, vou abrir uma rede de academias de ginástica.

Por Ricardo Novais