Mostrando postagens com marcador Ciência / Conhecimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência / Conhecimento. Mostrar todas as postagens

Deus perdoa

Paulo, o primeiro dos missionários. Foto Rafael Gomes.

Casei com um homem mais velho, bem mais velho. Casei por interesse. Minha mãe foi a única pessoa que ficou feliz; meu pai me perdeu por causa de dívida, dívida com a máfia italiana ou da roça mesmo. No Brasil é difícil saber de onde vêm as pessoas, somos uma família de expatriados.

Nasci em um sítio perto de Campinas. Aos 9 anos incompletos, fui morar com uma irmã mais velha na cidade. Terminei meus estudos regulares e então me mandaram para São Paulo. Até os 22 anos de idade eu tinha uma vida muito extravagante, dava para caras endinheirados por muita grana e morava bem em um apartamento da Alameda Lorena. Eu era bonita, muito bonita.

Paulo Roberto era velho, muito velho. Amigo de família, lá dos tempos da roça, um dia ele veio em casa e jogou uma maleta com oitocentos mil reais na mesa de jantar e um contrato de casamento. Meu pai estava junto com ele.

- Minha filha querida...

- Saia, papai! Paulo, fique.

Desde então, fiquei ainda mais bonita; Paulo Roberto, ainda mais velho. Meu pai, morto. Graças a Deus. Ele perdia muito dinheiro. Em seu leito de morte, a alma de papai foi pesada em menos de 21 gramas. Minha mãe também já morreu, morreu feliz. Paulo Roberto foi amante de mamãe, talvez por isto ela sabia que ele me faria feliz.

- Emanuelle, meu amor será teu escravo.

- Sim, estou protegida ao seu lado. Obrigada.

Tenho um filho. O filho é do Edu, mas Paulo Roberto pensa que é dele. Que velho burro! Várias vezes ele já me pegou na cama com outros homens e até mulheres, mas só diz: “Deus perdoa”. Paulo não é Deus, é meu pai biológico.

Deus não joga dados fora, diria algum leitor com ares de cientista. Eu acredito em Deus. Por isto não tenho remorso de nada, Deus perdoa tudo. Eu posso trair, enganar, roubar; Paulo pode trair, enganar, roubar e até matar; Deus perdoa, e isto é tudo.

A minha vida é muito boa. Sou uma mulher de 33 anos que não conhece varizes nem limite de cartão de crédito. Encontrei a partícula de Higgs, não vou à igreja, ouço Alice in Chains e tenho hora marcada na sessão de yôga toda manhã. Quando Paulo Roberto morrer, vou abrir uma rede de academias de ginástica.

Por Ricardo Novais

Reflexão do Camundongo

Imagem do Site: Ciência Portugal.

Hoje de manhã, andando pela rua, vi do outro lado da calçada uma moça belíssima. Meus pensamentos, que até então eram esparsos e vazios de novidade, voltaram-se para àquela figura agradável e que enleaste minhas primeiras horas do dia. De modo que fiquei, em certa altura, admirando o desenho dela à calçada, e esta ao lado do muro escolar próximo ao ponto de ônibus e à estação do metrô.

Se eu obedecesse ao prazer de meus pensamentos, ficaria no outro, sem nunca ter iniciado este post. Mas não há lembrança que não se sobreponha à outra, se esta for menos agradável. E esta é. Sendo assim, meus olhos viram, à distância pouca e entre as máquinas de outro homem, uma manchete de jornal online: “Cientistas Criam Vida Inteligente”. Foi isto que me fez esquecer a bela moça que andava elegante e despretensiosamente pela calçada oposta à minha.

Maldito gênio matinal que me tirou memórias deleitosas!... Fui então à minha máquina tomar conhecimento da notícia científica com maiores pormenores. Tratava-se de afirmação polêmica de médico italiano e seu colega norte-americano cientista de novas mídias, fundamentados por filosofia de Königsberg, de arriscada experiência biológica que promove a capacidade de um ser, de vida natural, em armazenar todas as informações existentes no mundo, usá-las e comunicá-las com recursos céleres.

O jornalista que escreveu o artigo, por certo tão preparado quanto os que lêem tais notícias, expunha que a Igreja Católica manifestou-se contrária a tal manipulação genética e que a classe política internacional é avessa ao conhecimento geral. Mas foi a declaração do rato, cobaia no experimento de criação da vida mecânica baseada na vida natural com capacidade de guardar dados, que causou a maior controvérsia. Verídico, leitor; não foi uma declaração oral, mas ocular. Havia uma fotografia abaixo da manchete e ao lado do texto, “Cientistas Criam Vida Inteligente”, onde se podia perceber toda a reflexão do camundongo. Verdade que as fotos não falam, talvez nem seja aptidão dos camundongos a organização cerebral; entretanto, via-se nos olhos arredondados e profundos do calunga a meditação de especialista em ciência e em opiniões tecnológicas.

Eis qual foi o solilóquio do rato:

“Este meu dirigente sofista quer criar vida... E inteligente! Estais a brincar de Deus. Meu querido diretor não se importa com pudores religiosos nem morais. Ousado és tu, tenta criar vida humana a partir de meus poucos esforços intelectuais... Clona-me, portanto. Não há de ser nada. Enquanto estudas teus experimentos, vou ajuizando que teu império não vale muito; sou eu quem me alimento de teus inventos quando estes forem tão-só lixo. Sou eu o protozoário que transmitirá tal parasita ao hospedeiro intermediário para que no futuro chegue ao hospedeiro definitivo. Além de que não tenho tuas angústias, amigo cientista, nem tuas implicações éticas, muito menos teu ‘papel de Deus’ criador da vida clarividente estimando (in)sensivelmente quantos fetos, ou bebês, defeituosos serão descartados na disputa do pioneirismo da clonagem existencial de ser arauto de todas as notícias da Terra – é de teu ofício, senhor, esta linha de montagem industrial... Fosse de meu encargo este experimento, eu o faria na tentativa de estabelecer conservada a ordem universal, como já existe, assim prolongaria também o tempo de modo a atingir teu objetivo de acumular e processar todo o conhecimento ungido sem nada perder-se no processo. Mas nunca como tu, cientista de razão pura, ambicionando criar tal antropocêntrica enciclopédia de acessos ultra celerados.”

Vi esta imaginação na imagem, nem tão grande nem tão curta, daquele camundongo que apareceu em artigo de jornal editado pela internet. A própria reflexão resignada apareceu nas retinas dele, pouco cáusticas e mais sinceras; pobre diabo! Não pude ver-lhe o gesto na fotografia, nem ouvir-lhe palavra ou cogitar-lhe outro julgamento; apenas pude ler-lhe os olhos arredondados e profundos.

Eu ri do rato, ele também riu de mim. Depois fui ter em outras coisas, outras figuras de moças belíssimas, outros pensamentos esparsos, enfim, fui cuidar da vida; vida esta tão celerada que consta já sofrer de ‘síndrome da fadiga da informação’. Maldição de 'Weil'? Ou será apenas a ação natural do 'toxoplasma gongii'? Aquele camundongo de ofício cobaia nada mais pode dizer; é que assim que ele alcançou a natural liberdade, tornou logo a antigo litígio com um felino, certamente hospedeiro intermediário, já seu conhecido.


Por Ricardo Novais

Viagem Extraordinária


Local onde ocorreu o abalo sísmico no Oceano Atlântico, início de 2010.

A família Marie-Flores teve de deixar o Haiti. O forte abalo sísmico que atacou a cidade onde moravam, Porto Príncipe, destruiu sua casa, matou mãe, irmão, filho e dispersou o resto do sonho de felicidade que a desinformação da crença Vodu ainda não tinha aniquilado.

Desde o tempo do Papa Doc e seu terrível filho, parte de seus parentes católicos fugiram para a América do Sul onde o sincretismo religioso, se não tem tanta consideração, ao menos não era perseguido diretamente como em Porto Príncipe.

Os Marie-Flores resistiram a tantos desmandos e crueldades, mas o terremoto era coisa enviada por feiticeiro muito poderoso. Arrumaram as malas que não tinham, escreveram as palavras de saudade que chorariam e, antevendo o futuro, vieram para São Paulo. Mas a estadia foi curta, visto que o Brasil é país caro e difícil de reconstruir a vida.

Seguiram os amigos, foram morar no Chile. Justamente um dos países mais simpáticos e queridos entre sul-americanos – salvo talvez para os argentinos, mas por questões inerentes aos dois povos e, às vezes, alguma centelha do temperamento. Seja como for, desgraçadamente, apenas alguns dias em território chileno, outro terremoto ainda maior que o acontecido em sua pátria devastou de vez a família Marie-Flores. Mortos ao lado de toda gente da cidade que havia os acolhido, restou-lhes a esperança de alcançarem alguma paz.

O genial Júlio Verne, certa vez, fez magnífica “viagem ao centro da Terra”. Não consta que haja lá nenhum Vodu maligno ou zumbi vindo diretamente de algum filme de terror...

Abaixo revelador documentário, Viagem ao Centro da Terra, que foi produzido pelo Discovery Channel, em 2008:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.






Segunda parte do esplêndido documentário, Viagem ao Centro da Terra*, Discovery Channel:

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.





Quem sabe um dia eu não entre (a pé) no túnel do Ibirapuera (desculpe aos amigos islandeses), supere meu marasmo e atravesse o centro da Terra, desbravando a energia das placas subterrâneas, perfurando crostas magnéticas, navegando num assombroso mar de metal líquido, alcançando o núcleo deste Planeta, conhecendo ainda homens pré-históricos, microscópicas bactérias mais estranhas, gigantescos fungos elegantes, de modo a enfrentar os "dinossauros" quais devam ser os reais causadores de catastróficos terremotos que vimos cá em cima, vindo, por fim, depois de tamanha experiência arriscada, a ser expelido novamente à superfície terrestre e também por algum vulcão da Sicília... Não! Apenas o fantástico (em muitos sentidos) escritor Júlio Verne tinha imaginação notável e fascinante ao ponto de poder realizar tão extraordinária aventura.

Não zombes de minha fantasia, leitor de espírito prático, pois como diria o próprio Verne: "o que um homem pôde imaginar, outro pode realizar".


Por Ricardo Novais

*Documentário: Viagem ao Centro da Terra; Discovery Channel; 2008.

Homem Positivo


Foto: CAIO AMY/FotoRepórter/Estadão.

Quando Augusto Botelho nasceu foi admitido como servidor da humanidade. Criança alegre, seus pais logo se voltaram à sua educação; “menino alienado”, veio-lhes a preocupação. No dia seguinte ao debute de seus 15 anos de homem, Augusto foi iniciado no sacerdócio de seu inevitável destino. Dedicou-se ao estudo de muitas ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral. Contudo, foi um jovem em contato com a vida de sua verdadeira vocação.

Por infortúnio, seu pai morreu de alcoolismo. Sua mãe, desgostosa, suicidou-se; ela julgou ter direito a isto. Seu tutor o violentara diariamente, apenas aos 21 anos livrou-se do martírio. Achou graça nas pesquisas de sua vida, algumas vezes correu atrás da sorte grande... Augusto era elegante, como era; era vaidoso, como era; era como o cão passeando pela calçada à procura de algum osso, ou o soldado de guerra à procura de algum pescoço para cravar-lhe uma facada ou de alguma cabeça para decepar-lhe o cérebro.

Embora ele ainda não soubesse bem qual seria, nem se deveria acreditar em Deus, nos homens, na ciência ou na ordem, aceitou o seu destino. Rapaz refinado, Augusto Botelho faria tudo pela sua raça e o progresso dela. Casou-se com Maria Floresta Augusta, como regra geral. Não foi feliz, mas a cônjuge foi; não pode se divorciar, e Maria não teve filhos.

Reconhecido sua viuvez eterna, ainda era jovem e foi tratar de sua missão sonhando com a sua própria incorporação à humanidade. Desgraçadamente achou-se o mais melancólico, amarelo, desvirtuado e falso de todos os homens sob à face da Terra. De todo modo que ele tinha medo de não ser incluído à humanidade.

Já velho, Augusto Botelho passa então de seu trabalho ativo, ou mesmo passivo, para viver como conselheiro, auxiliando a sociedade a qual pertence com sua experiência.

Apreciando o conjunto da existência objetiva que se acaba, passou ele a registrar suas impressões finais daquilo que poderia se transformar em uma parcela subjetiva do Grande-Ser. Iniciou, com consciência digna dos grandes cientistas, o culto de seu próprio enterro. Por um momento achou tudo perdido, sem jeito de melhora e duvidou do tal progresso no qual manteve as esperanças desde quando ainda era um menino. Porém, em seguida, recuperou a serenidade e fez o que tinha que fazer: preparar o próprio velório. Não pode fazer, no entanto, sem derramar uma única e longa lágrima; não se sabe ao certo se a lágrima era de tristeza ou mesmo de alegria, os rios de seus olhos foram-se com ele.

Finalmente Augusto foi incorporado à humanidade: 7 anos depois de sua morte, ou transformação, teve julgamento de sua memória de morto. Ainda não se sabe se será morto considerado digno de ser incorporado definitivamente à humanidade, mas, como esta sociedade é bastante antagônica, seus restos mortais foram conduzidos a bosque sagrado, em sepulturas conjuntas com seus entes queridos. Seus discípulos afirmam que este bosque sagrado circunda o templo da humanidade.

"O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". E do fim, creio que estão escrevendo algo por aí nestes salões de sociedade; já este meu texto que também está no fim de sua linhas, por ora, não vai mal. De modo que corrija ou elimine, caro senhor leitor e querida amiga dona leitora, tanto lá como cá, o que sentir vontade ou julgar ruim. Parece que a ciência não gosta muito da prosa com a religião, então, apostemos em nossas próprias convicções e que tenhamos opinião firme; rogando sempre que a nossa boa ciência conserve e aperfeiçoe a humanidade... Mas que o nosso bom Deus também nos perdoe!

Por Ricardo Novais







Minha adorável namorada extraterrestre!

Foto: Rui Lemes.
"Bárbara, eu achava graça nas maluquices desta garota; ela dizia acreditar em seres de outros planetas. Irritava-se, verdadeiramente, quando eu contestava a veracidade dos casos; e ela repetia com tanta insistência, que, por vezes, acreditei serem reais:

- Mas, querida, “ets” não existem!

- Como não? No Apocalipse, o apóstolo João descreve que, num certo momento, Jesus está com ele e, de repente, é levado às alturas. João, num lance quase de excitação, começa a ver imagens que nunca tinha visto antes em sua vida. Era uma espécie de aves metálicas aparentando pesar uns quinhentos bois, mas consegue, como mágica, se sustentar no ar. Ora; este pode ser um dos primeiros registros em que um homem viu uma nave espacial...

- Ah, Bárbara! “Meu”; seres extraterrestres não conseguem se transportar para outras galáxias; que eu saiba, ser nenhum consegue. É impossível! Não é? – eu a achava espirituosa, mas permanecia incrédulo.

- Veja só! Como você explica, então, o caso daquela senhora, aqui de São Paulo, que morreu sem o rosto?

- O quê?

- Uma senhora, já idosa, foi encontrada sem rosto dentro de casa. O delegado que presidiu o inquérito policial disse que a face dela estava sem a pele e a carne. Apenas o crânio reluzente e branco. E o mais esquisito: totalmente limpa. Não havia vestígio nenhum, de sangue, de nada. Nem na cama ou no travesseiro. Além disso, a blusa branca que usava não aparentava marcas, nada. É muito estranho...

- Pode ser um assassino macabro...

- O delegado declarou: “Descarto a hipótese de assassinato, mas não do sobrenatural” – ela sorria sinistramente.

- Mas o rosto foi recortado sem derramar gota de sangue?

- Sim; e com precisão cirúrgica. Retiraram toda a carne ao redor...

- E por que um ser alienígena faria isto?

Bárbara fazia breves instantes de silêncio, porém, quando falava atemorizava até os mais incisivos incrédulos, como eu.

- A senhora morta estava muito velha e necessitava de cuidados especiais. Ela passava seus dias na cama. No dia do estranho acontecimento, à noite, perceberam que ela estava imóvel na cama. Chamaram, não houve resposta. Desesperados, saíram para chamar ajuda. Alguns policiais deram mesmo um grito de pavor...

Eu achei engraçado, quis dizer algo, mas ela não deixou:

- No exame necroscópico, os legistas responsáveis do Instituto Médico Legal, afirmaram que uma pneumonia bilateral e um choque séptico foram as causas da morte da pobre senhora, e que sua face teria sido comida por roedores...

- Está vendo; então foram os ratos ou, ainda, pode ter sido algum ácido – eu constatei para o desprazer de minha amada.

- A versão médica foi questionada pela polícia e pela família. Disseram os filhos da vítima não haverem ratos por lá. O delegado disse, também, ser a versão da perícia muito cômoda, pois que ratos deixam marcas, e o rosto dela parecia ter sido cortado com a ajuda de um bisturi. E depois de horas da morte, o corpo ainda permaneceu quente. Médicos americanos, chamados a dar opinião, igualmente discordaram do laudo que atestava os roedores como causadores do recorte do rosto.

- Então foram alienígenas?

Bárbara deu de ombros, em seguida, com muita espiritualidade, filosofou:

- Mais uma vez, as perguntas ficam no ar... Quem teria cometido tamanha monstruosidade? Vingança? Experiência alienígena? Algum ritual macabro? Nunca poderei saber. A verdade sobre este caso foi coberta por terra vermelha batida, e está numa quadra qualquer, de um conjunto ordinário, de um cemitério simples; local onde, agora, descansa a senhora sem rosto.

Na realidade, não era possível verificar se Bárbara acreditava mesmo nestas coisas. Mas que ela se divertia contando, ah, isto sim, como se divertia.

Neste momento, inclusive, recordo-me dela narrando, com extrema teatralidade, o caso de um cadáver que foi encontrado nas areias da zona praieira da região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro.

Dizia ela que foi passar férias por lá, num verão que já vai longe, e ouviu os “populachos” relatando a morte de um homem cujo corpo não tinha gota de sangue, e na altura do pescoço havia estranhas perfurações.

Sobre este caso, algumas testemunhas, contundentes, acusaram a uma loura, usando meias de lycra pretas, que rondara o local nefasto. Outras pessoas afirmavam ter visto a tal loura correndo semi-nua pela praia e desaparecendo nas águas.

Por mais incríveis que possam parecer os depoimentos, e apesar do descrédito geral, as mortes se seguiram. Primeiro uma menina, em seguida turistas tiveram pescoços dilacerados e seus corpos dessangrados.

Sendo assim, Bárbara jurava que as autoridades locais enviaram homens para patrulhar as praias e capturar a sereia assassina. No entanto, alguns patrulheiros foram brutalmente mortos e o restante da turma tiveram as pernas e os braços esquartejados. Corpos e partes de corpos espalhados ao longo da enseada. Os sobreviventes não tinham nem idéia do que havia os atacado. Disseram, apenas, ser uma mulher grande, pálida, olhos felinos, vermelhos, longos cabelos louros e dentes arreganhados. Os relatos indicavam que o monstro parecesse com uma criatura feminina, andava semi-nua e tinha apenas um seio.

Nas mãos de um dos mortos foi encontrado um amuleto, uma espécie de machado, manchado de sangue. Este amuleto é semelhante aos das lendárias amazonas, índias guerreiras que habitavam – ou ainda habitam, sabe-se lá – a região do rio de mesmo nome e assim batizado em homenagem às mitológicas mulheres guerreiras da antiga Grécia. A-ma-zo-nas!

Quando contestada sobre como e por que índias guerreiras da floresta amazônica deslocar-se-iam para a região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, Bárbara desconversava. Mudava logo para outro assunto macabro; como o do sacristão abduzido em plena Praça Mauá, na capital carioca, ou sugeria o quão terrível os exames que alienígenas impõem aos seus capturados em suas naves espaciais metálicas. A vergonha, o descrédito e mesmo a falta de conhecimento fazem com que as pessoas se calem; ela afiançava a mim estas coisas, sorrindo e beijando-me.

Bárbara se comportava comigo sempre assim, surpreendente. Nunca se sabia o que ela diria, o que faria, o que acreditava (se é que ela acreditava em algo nesta vida), e, sobretudo, qual seria seu humor. Ela mostrava-se uma mulher instável; mas devo confessar que isto era apaixonante. Não a via mais como um “casinho” de amor, ou apenas com olhos lascivos; já era mais do que isto. Aquela bela garota carioca, apimentada, olhos misteriosos, sedutora, também inteligente, convincente, temperamental, voluntariosa e indisciplinada, provocava-me com uma espécie inidentifícavel de 'ethos' de natureza emocionante.

- Por que você nunca fala aquela frase... de três palavras que perfazem toda a oração?

- Qual?

- Aquela frase mágica que os casais dizem entre si...

- Mas qual é?

Eu sabia qual era; não a dizia por graça, ou talvez por certa prudência demente. Mas, por fim, fascinado pelos encantos arrebatadores daquela garota, acabava capitulando:

- Eu te amo!"

__ / ______

Caro leitor risonho e leitora adoravelmente incrédula, este texto não teve a pretensão de descobrir alguma verdade metafísica ou de além-humanidade, nem mesmo refletir sobre ela. É apenas um pensamento, quase uma sátira infantil, ingênua. Acredite!

Mas é notório que a tecnologia humana já é maior que sua responsabilidade, caso esta exista.

A ideia conjecturada da existência de vida de seres extraterrestres não me parece interferir nos desígnios das diversas dimensões espaciais. Já o homem, por outro lado, conhecendo sua natureza, tenderá por certo a uma grande dominação, manipulação, guerra, agressão e ao materialismo das dimensões a qual ele nem mesmo pertence. Pobres seres de outros planetas...

Quem sabe se houver, um dia, um crescimento espiritual antes do domínio tecnológico o homem poderá integrar-se de fato à vida em outras dimensões - mas repito, somente se houver responsabilidade.

Penso, contudo, que nesta sociedade humana atual isto parece impossível; como sabe.

Por Ricardo Novais

A Fé ou a Ética?

Abraão, o pai da fé.

Numa sociedade onde se tem a sensação de que a corrupção ronda seus salões, onde eleitores não confiam em seus eleitos, onde a mídia 'mascara' a essência dos fatos e das ações, ou onde a fé é vista como retrocesso e, por isto mesmo, o 'cientificismo positivista' é enaltecido, onde, aliás, comemora-se até um evento fútil e imbecil denominado #lingerieday, surge a pergunta: o que é ética?

Søren Aabye Kierkegaard, no livro Temor e Tremor, descartando qualquer pretensão de ser um filósofo, pelo menos no sentido hegeliano, tende à visão de cristão - quer dizer, analisa a ética do ponto vista da crença religiosa.

Mesmo assim, o que ele diz evidentemente tem importância tanto filosófica como religiosa. Mas ele se fixa essencialmente no campo do ético, demonstrando-se plenamente consciente das visíveis limitações da esfera à qual pertence. Mais especificamente, ele está preocupado com a inabilidade dela em abranger os fenômenos da fé.

A sua insistência nesse ponto pode, é claro, ser tomada como indicação da divergência de sua abordagem com Kant e Hegel. Esses dois autores procuraram, ainda que de maneiras diferentes, assimilar ou subordinar a noção de fé religiosa a outras categorias do pensamento - Kant classificava suas asserções como postulados da razão prática ou moral, Hegel a via como prefiguração, num nível pictórico ou imaginativo, de ideias da consciência que conseguiam articulação racional dentro da estrutura de sua própria teoria filosófica, que a tudo abrangia.

Em Temor e Tremor, por outro lado, a fé é representada como possuindo uma condição inteiramente diferente: está além dos domínios do pensamento ético e resiste à elucidação, seja em termos universais ou racionais. Isso não significa, contudo, que a fé deva ser vista como algo essencialmente primitivo ou não merecedor de respeito; não é "uma doença infantil de que alguém deseje se livrar o quanto antes". Ao contrário, o livro conclui com a observação de que a fé é "a mais elevada paixão de uma pessoa". Além do mais, é sugerido, em toda a obra, que somente um indivíduo moralmente sensível e maduro tem condições de reconhecer as dimensões de suas misteriosas e severas exigências.

Ainda que a aceitação dogmática de Kierkegaard, que por mais que se esforçasse não conseguia libertar a própria alma em sua coerente teoria existencialista - posto, quiçá por seu pai ter amaldiçoado Deus pelos infortúnios de sua vida sendo, por ventura, agraciado pelos Céus e castigado logo depois pelo pecado, de tal modo que a maldição recaiu sobre toda a família, ascendentes e descendentes, e o temor podava a metafísica do filósofo - a mim parece que os preceitos de moral da fé religiosa levantadas por Kierkegaard são mais eficazes que a moral da ética 'científica'. Posto que esta ética, essencialmente em moldes positivistas e galicistas, forma uma sociedade assassina e burra.

Acatando-se ao pensamento de Søren Kierkegaard: “É com a subjetividade que o cristianismo esta ligado, e é somente na subjetividade que a verdade existe, se é que existe; objetivamente, o cristianismo não existe em absoluto!

Mesmo que as ideias aqui relembradas e levantadas não contenham a verdade essencial de todas as coisas, a fé religiosa não tem que provar a superioridade de sua moral. Neste caso, o ônus da prova é de quem contesta e não de quem afirma, pois a fé existe e está estabelecida desde o início da humanidade. Portanto, incorre em erro aquele que não crê por não haver provas materiais do supremo, aqueles 'cientistas' e ateus inveterados que, ao invés de discutir e desenvolver o tema com argumentos, insistem pateticamente em desqualificar a fé religiosa ou a crença de uma pessoa contestando sua existência ou renegando-a no campo psicológico.

Não te parece que a fé religiosa é moralmente superior a ética?


Por Ricardo Novais
______________________________________________________________
* Sǿren Aabye Kierkegaard, filósofo dinamarquês, nascido em Copenhague, em 1813, e morto na mesma cidade, em 1855. Concluding Unscientific Postscript, tradução de D.F. Swenson e W. Lowrie, Princeton, Princeton Univercity Press, 1941.

Oferta do Dia do Futuro

Uma Universidade do Reino Unido – em São Paulo também há pesquisas no mesmo sentido – afirma que no futuro as partes desgastadas do corpo humano, como quadris, joelhos e válvulas cardíacas, poderão ser trocados por novos, fazendo com que as pessoas idosas tenham idade biológica de 50 anos, no máximo. Excelente notícia!

Imagino-me daqui uns 50 anos – se eu ainda estiver nesta grande aventura – e com problemas nos meus atléticos joelhos. Poderei ir, comodamente, ao setor de “humano-peças” e fazer meu pedido:

- Doutor, por favor, me veja aí um par de articulações para os joelhos.

O atendente, todo vestido de branco, diz com ares entendidos e simpáticos:

- Sim, pois não. Na compra de articulações para os dois joelhos, o senhor ganha de brinde uma válvula do coração ou um disco de quadril; fica à escolha do cliente – ele estende um largo sorriso ainda oriundo dos tempos de vendedor de carros usados. – Também fazemos a colocação nos joelhos aqui mesmo; o senhor quer trocar agora? – interroga-me calmamente.

Eu já estou fazendo minhas economias, para evitar recall, já reservei um fígado novinho para o ano 2060.


Por Ricardo Novais

Protected by Copyscape Online Infringement Detector