
Poucos minutos depois o garçom solicitou a ele que apagasse o fumo. Ele obedeceu, tirou uma caneta do bolso da camisa, um bloco de notas no paletó e começou a escrever.
Acredito que aquele rapaz escrevia uma carta. Escrevia de cabeça baixa, às vezes parava de escrever, fitava um ponto fixo que parecia não estar prestando atenção e, em seguida, tornava à escrita. Fez isto durante uns cinco minutos ininterruptos. Por fim, pareceu terminar a tal carta.
Guardou a caneta no mesmo bolso da camisa, jogou de lado o bloco de folhas, dobrou o papel que acabara de ser escrito e recostou-se na cadeira. Então começou outro hábito; pegava do copo de uísque, sorvia-o e, imediatamente, servia-se de outra dose.
Resolvi ir ter com aquele rapaz. Geralmente não incomodo desconhecidos num bar – a hora da bebida é sagrada! –, também eu gosto de beber em paz. Mas é que fiquei tão admirado dos gestos elegantes daquele jovem que senti vontade de conversar com aquele verdadeiro cavalheiro:
- Desculpe rapaz, mas o observava ali do balcão e me pareceu perturbado... Está tudo bem?
- Ó, sim, sim... Mas, por favor, sente-se e... vamos beber! – ele disse isto de forma simpática e, ao mesmo tempo, numa ordem implícita.
Sentei-me, bebi, e iniciamos uma conversa descontraída.
Nossos assuntos foram diversos, da política brasileira à situação difícil dos trabalhadores, de futebol aos novos filmes americanos, discordamos quando falamos dos novos rumos da administração da cidade, mas concordamos com a escolha da garota da Playboy deste mês. Ainda falamos mal da vitória dos cariocas para sediarem os Jogos Olímpicos de 2016 e da participação do Presidente da República no Comitê Olímpico. Enfim, foi um típico papo de botequim: simples e agradável!
No entanto, lá pelas tantas desta nossa conversa patusca, o rapaz começou a chorar copiosamente. Ele pegou do papel que tinha escrito a pouco e o entregou a mim.
- O que é? – perguntei.
- Leia! – ele ordenou.
Li. Era mesmo uma carta, uma carta de despedida. Levantei os olhos assustado e fitei o jovem, inquirindo-o. Ele confessou:
- Eu ia me matar... Mas, depois deste nosso papo, desisti. Obrigado!
- Bendito bar! – eu ainda consegui balbuciar comigo mesmo terminando o drinque.
Por Ricardo Novais