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Salve, Jorge da Capadócia!


Quadro antigo de São Jorge pendurado por prego enferrujado no solar da velha casa de fazenda da senhora minha avó, carola de Santa Maria do Rio Abaixo.

Salve o jovem Jorge da Capadócia que, montado em seu cavalo branco, vai à caça dos dragões por todos nós. Dia 23 de abril, vê-se todo o Rio de Janeiro, toda São Paulo, toda Belo Horizonte e cercanias das mais longínquas nas igrejas, orando, agradecendo ou implorando à graça; tradição herdada dos nossos antepassados lusitanos. Não deve ser diferente também na arquidiocese de Boston, Munique, Dublin, Canal da Inglaterra, da velha Itália, Áustria, Suíça, polacos, eventuais russos e até a gente turca, grega, viking e dos países baixos. Enfim, aquela consagrada esperança misteriosa do mundo ocidental que nos forma como povo.

Neste pedaço gigantesco de terra onde vive tu, amigo leitor, vive também este desgraçado autor, aprendemos quem somos nos bancos redentores de cravo preto. Como todo brasileiro, mesmo que postiço, São Jorge toma-se e confunde-se nesta civilização. Povo bonito, sincero, cândido que guarda tesouros exuberantes. De igual modo povo esperto na fé, cruel nas lágrimas, ambíguo nos cochichos. Nem mesmo o cavaleiro da promiscuidade, Rousseau, também pai do civismo moderno, poderia entender estilo de vida menos verde que amarelo. Deste modo, eu, que jamais me interessei por entender trâmite de sociedade alguma, atrevo-me a adivinhar as riquezas escondidas nos cantos da alma seguindo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta sucinta e despretensiosa digressão o porquê de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, como arquiteta secretamente o leitor, que eu pendo à boa farra. Mas deixe isto de lado que é outra história...

Oh, o que é isto? Que revolta! Ouço vozes... Sinto-me pressionado; digo, repito, grifo que escrevo este post sobre história santa, mas a dona leitora insiste em querer romance, eventuais traições e aventuras com perdoes e lágrimas de paixões arrebatadoras. Não gosto de gente que insiste em dar opinião em enredo que ainda está sendo escrito. “Vamos, narrador de uma figa, vamos logo à vida do mocinho. Faça logo sofrer a mocinha, senhor autor. Onde estão os garotos que sofrem? E o vilão, cadê?” – É isto que quer a amiga que deveria apenas ler as linhas e não se meter a dar palpite nelas. Se quiseres tu escrever o texto, levanto-me da cadeira e ponho-me a ler tuas ideias; serei eu seu mais fiel leitor, querida leitora. Mas a história que me propus a descrever é a de fé em santo respeitado, vitorioso, santo católico; São Jorge, o mais guerreiro e corajoso dos guardiões do santo ofício que tanto clama por salvação nestes últimos tempos. Coisa séria, coisa de minha responsabilidade, e minha consciência não garante invencionices, eufemismos ou coisa que deforme por demais instituição milenar, como apreciam alguns da imprensa, das igrejas protestantes e lá para os lados do outro mundo, o mundo mulçumano. Além de que, senhora amiga, não quero eu ser desmascarado por falso testemunho.

Tenha paciência, tenha paciência.

Flagelo-me também por não fazer da leitura uma agradável aventura, mas é que São Jorge perfaz o viés de uma vida de redenção, de modo que sem fé não haverá o leitor como compreender nenhum ator que figura saga promíscua... Talvez, mais para o futuro, em outra história, outro post, quiçá até outro blogue e autor mais amarelo, haja algum prazer ou algum apreço por estas linhas... Talvez haja...

Em nenhuma hipótese aceitarei que a senhora mude o curso da narrativa com vossa amabilidade e doçura; embora eu admita que goste de visita, não significa belo tormento. Aceito vossa sutileza e charme, senhora amiga que lê, entretanto, contenha-se! O caso aqui é mais de fidúcia monástica; caso de base, alicerce, fundamento que tanto faz pedir como agradecer; contrastes dos reles humanos sem vocação de santidade.

Por fim, acatando ao pensamento, valendo São Jorge, quero aqui ser apenas humilde fâmulo de Deus. Apenas um criado, servidor, clérigo leigo a serviço da residência episcopal no qual se perturba com as aflições dos homens.

Faça-se presente, São Jorge da Capadócia...

“Ó glorioso São Jorge! Tribuno militar e cavaleiro romano, vós tínheis pela frente brilhante carreira; mas a fé vos disse que devíeis lutar por Cristo. E vós protestando contra o edito de perseguição do imperador Diocleciano, trocastes a espada de soldado pela espada da cruz, e declarastes guerra ao paganismo.

Tombastes mártir de Cristo, mas vosso martírio foi o golpe que transpassou as fauces do dragão.

Glorioso São Jorge! O dragão que vós pisastes tenta reerguer-se. O dragão do paganismo moderno arremete com furor contra a humanidade. Imploramos vossa defesa e proteção! Conservai nossa fé. Corrige aqueles que usam o vosso nome para enganar seu próximo com práticas hipócritas de um sistema social e econômico contrário a fé que vós defendestes.

Milagroso São Jorge! Ajudai-nos em todas as nossas dificuldades. Defendei-nos do dragão infernal e livrai-nos de todo o mal.”

Amém!


Por Ricardo Novais,
Servo de fé.

Tribunal do Júri

Gravura de arquivo do TJ-SP.

Um amigo de ideias amplas, embora já bastante convicto, perguntou-me no Twitter: "Quem é que vem lá?". Respondi que achava ser um astro da MPB ou algum artista de novela.

- Vá! Seu pensamento assim parece desmerecer nossa promotoria de justiça, comparando-a com instrução jurídica de artes circenses...

- Oh, não! Não penses isto – respondi-lhe em 140 caracteres; não acredita, caro leitor, pois então conte os dígitos. – Fiei e admirei de tão valoroso espetáculo. É grande pesar o nexo causal ser por fundamento tão doloso... É pena! – Lamentei deste modo até pessimista ao tuiteiro otimista e contente.

É que toda a história deste julgamento feito por júri popular de crime contra a vida de inocente infante estava já por mim prevista, tanto que no domingo passado, antes mesmo das explanações e interrogatórios, dediquei-me à leitura das posturas que se agitavam nos dias de Platão e Aristóteles.

Conjecturei, seguindo as ideias pregadas na antiguidade clássica, resignar-me em meus próprios pecados. Entendi que a república inteira deveria acompanhar o meu exemplo. Finalmente, naquele domingo, acatei que o perdão é mesmo dom divino... Dormi. Acordei na segunda-feira e fui aos meus afazeres, estes que já tomam algum tempo de minha cidadania.

Pra semana, imerso numa curiosidade que compreende bem a situação e não alcança nem se embala com esperanças frívolas, observei um repórter de TV perguntar a um popular muito raivoso que encontrava-se na frente do tribunal e manifestava-se contrário aos réus daquele julgamento:

- O que o senhor anseia aqui?

- Vingança! – Ops, creio que ele tenha dito: justiça.

- E, na opinião do senhor, o que leva um pai a matar o próprio filho?

O pobre homem não estava esperando tal pergunta; ele estava ali para protestar, protestar era o seu oficio. De modo que ele pensou, pensou, sopesou e não achou reposta apropriada:

- Rapaz, verdade. Eu quero justiça, por isto estou aqui... Mas, rapaz, o que leva um pai de família a destruir esta mesma família? – Em meio àquelas reflexões, ele exclamou desolado por fim: "Rapaz do Céu!"

Pareceu-me que depois desta entrevista o manifestante tenha ido embora para casa; afinal de contas, todo mundo tem família e seus julgamentos particulares para cuidar; concordas comigo, amigo leitor?

Como resultado da reflexão, da leitura dos autores clássicos, a república vai caminhando para a plenitude da justiça e democracia... Ao menos foi isto que declarou aos quatro ventos o célebre promotor do Ministério Público, seus correligionários paladinos da virtude, a neutralidade do magistrado, a defesa arrasada e toda a pungente imprensa.

Contudo, facilmente no decorrer da leitura do aresto, constatou-se que o destino envolve o homem para onde soprar o vento; mas não culpemos o destino, desgraçadamente somente cumpre o seu ofício; também não culpemos o vento, este é apenas um subordinado daquele.

Todavia, se há um julgamento e uma decisão, deverá lá, da mesma maneira, haver um culpado. No entanto, a dona leitora ponderada bem sabe, não há nada absoluto no gênero humano, de modo que nada justifica amar nem odiar. Só nos resta a indiferença, o ceticismo e, às vezes, a lembrança do passado.

Ah, claro, resta-nos – além de tudo, e entre risos, lágrimas e fogos de artifício – a comemoração pela desgraça alheia ou a justiça de uma sociedade. Talvez, a Copa do Mundo... Talvez.

Por Ricardo Novais

Tratado das Cotas


STF - A justiça que nada vê, mas que tudo sabe; será?

Por estes dias, já passados, reuni-me a um grupo de amigos para uma agradável tarde regada à cerveja. Vi-me, entretanto, no meio de uma inócua batalha política. Seria de minha satisfação matéria mais deleitável, como o talento das artistas de TV, as brigas entre celebridades do futebol ou alguma votação esdrúxula inventada por algum diretor de cinema ou ex-jornalista, mas acirrou-se a discussão acerca dos candidatos de direita nestas próximas eleições. Já havia ficado surpreso com a opinião corrente na sala de que o PSDB, partido de dissimulados socialistas, tende ao pensamento conservador.

- Isto é uma temeridade! – declarou um amigo dando longo gole na garrafinha de cerveja.

- Veja – abriu uma articulação outro patusco –; o que ocorre é apenas uma embalagem política: enquanto Lula é um comunista com aparência de 'estadista' popular; Serra, ou outro tucano, talvez menos Aécio, é produto da centro-esquerda, em moldes da 'social-democracia européia'... Mas ele quer a mesma coisa que seus "adversários", ou seja, implantar uma ditadura de esquerda neste país.

Houve espanto e risos:

- Não se iluda! Extremistas de direita são fascistas repugnáveis, mas esquerdistas apelam para uma 'justiça social' que só atende a um projeto político há muito estabelecido. Graças que o maldito Prestes morreu! Ele adoraria ver o que se tornou este 'País do Futuro'...

A resposta para a cura desta sociedade hipócrita e positivista 'afrancesada' ninguém tinha naquele recinto, no entanto, discorria-se sobre a visão central de resgate de valores, há muito perdidos, com gosto. A arte, educação, cultura (não como conceito, mas como formação autêntica), religião (seja lá qual for e que pregue algo estabelecido e reconhecido pela humanidade), a sufragada família, estas coisas que muitos dirão fora de moda ou reacionárias, etc., foram assuntos recorrentes entre falatórios afetados e, à vezes, muito inconsistentes.

- Então, se for assim – disse um mais sofisticado –, sou reacionário, no sentido rodrigueniano mesmo, sou contra tudo que minha consciência, depois de muito sopesar as ideias, julga não prestar.

Deixemos isto, leitores. É que o assunto vagabundeou para outro tema, as malfadadas cotas raciais. Um velho colega de boa farra, segurando firme a garrafinha de cerveja, atacou as cotas com entusiasmo admirável:

- Também eu não seria contra, não fosse as consequências, meu amigo – declarou de pronto este mais conservador. – Perceba, corre-se o risco de haver no Brasil uma segregação racial; coisa inexiste neste país, ao menos até hoje. Há racismo, mas não declaração pública de ódio em moldes ocorridos entre sul-africanos, norte-americanos ‘sulistas’ ou mesmo da Alemanha dos anos 1930; óbvio que devemos descontar as insanidades de alguns imbecis que, às vezes, pipocam em algum rincão do centro-sul brasileiro, porém isto é a exceção.

- Exceção? Palavra bonita, pois quer dizer que não é a normalidade; correto? Mas, com as tais cotas em universidades e sei lá mais o que vai vir, a exceção pode virar regra e termos um país com vizinhos de portas fechadas sem distinção. Se o Brasil não é o país mais maravilhoso do mundo, é ao menos de boa índole. – Tais palavras foram as de um sujeito que defendia as ideias do primeiro 'anti-cotista', já este, sentindo-se seguro, continuou então na explanação que fora obrigado a interromper:

- O exemplo da UnB é o mais absurdo! – afirmou com convicção. – O ‘cotismo’ tem como critério exclusivo a cor da pele. Aí é pedir para termos guerras civis ou outras barbáries que só vemos em crimes passionais; não consta que por aí há crimes ideológicos sufragando direitos religiosos ou das etnias, sejam elas quais forem, neste nosso Brasil; meus caros. A não ser a exceção, mas desta eu já falei; não é mesmo?

Neste momento, os defensores das cotas inflaram-se, e, valendo-se dos relatos históricos gerados pelos desdobramentos jornalísticos, notavelmente as reportagens da Folha de S. Paulo que foi crítica à intervenção do senador Demóstenes Torres na audiência pública do Supremo Tribunal Federal, enumeraram as mazelas dos tempos da escravidão. Nem há muita necessidade de preencher linhas neste texto com tais pensamentos, pois, ora, não há muito mais originalidade do que vemos nos livros de história.

O verdadeiramente interessante foi a contestação do 'cotismo' feita, ao que tudo indicou naquele momento eloquente, sem a intenção de enganar a consciência. Primeiro, com repulsa:

- Aqueles moleques? Aqueles "delinquentes", como disse Edson Nery – bradou com raiva o 'anti-cotista' com lembrança na matéria da Folha.

De repente, este estimado colega, que até então permanecera afetado, falou calmamente:

- E ele tem razão. O doutor Edson tem toda razão. No entanto, o senador pisou feio na bola! Ele citou Gilberto Freyre e... Bem, Gilberto Freyre foi um defensor da miscigenação e não o contrário. Nos Estados Unidos, ele teve contato muito importante com seu mestre, Franz Boas. Com Boas, ele aprendeu a distinção entre raça e cultura. Condições culturais nos sentidos amplos, antropológicos. E foi Gilberto que mostrou pela primeira vez que os problemas de deficiência no trabalho não decorriam da miscigenação, e sim do problema da alimentação. No caso brasileiro, o negro foi submetido... – não há necessidade de dizer o resto, pois este argumento, na verdade, não passa de pensamento decorado das ideias do senhor Edson Nery.

O efeito das garrafinhas long neck, como o amigo leitor e a querida dona leitora podem imaginar, já fazia com que todos no lugar falassem ao mesmo tempo e em tom altíssimo.

Vizinhos da residência poderiam estar irritados com o barulho. De modo que não devo eu aqui incomodar outros que possam morar por perto; assim, em suma, e tentando organizar as ideias, foi isto que concluíram:

“Os candangos criaram verdadeira comissão 'racialista' para decidir se o estudante é negro ou não. Gobineau, aquele maldito 'pai do racismo científico’, se desgraçadamente ainda vivesse, teria inveja dos 'intelectuais de Brasília’... Que absurdo!”

Isto indica a polêmica causada na sociedade inteira na audiência pública do STF, onde de 40 convidados, 28 declaram-se favoráveis ao sistema de cotas e apenas 12 foram contrários. Lá, por exemplo, o senador pelo estado de Goiás, Demóstenes Torres, mal pode expor o que pensa. Foi taxado de reacionário, racista, 'lixo humano', estúpido e não foi ouvido. Que democracia, não? O que achas a dona leitora, que é sempre tão ponderada?

Este evento foi coisa que parece ter deixado a maioria de meus amigos patuscos profundamente tristes, pois deferiram mal dizeres aos 'pensadores ongistas'; disseram deles: “cafajestes". Não me esquecendo detalhes de técnica em oratória dita e que meus ouvidos envileceram, tais como: “estes pulhas, eles vivem a defender os homossexuais, a floresta, a baleia azul, o diabo, enfim, defendem a virtude com gosto, mas poucos são virtuosos”.

Agora que o desgosto torna, vem-me à mente trecho do discurso dos caríssimos questionadores pândegos, lembro que a palestra foi quase tão eloquente como às feitas lá para as bandas do Distrito Federal:

“A política de cotas se baseia numa ideia de reparação de culpa, assim não se respeita a sociedade que vive hodiernamente. Esmaga a própria lei criada por positivistas que agora defendem tal aberração. Sabemos que a culpa precisa de vilão. E os vilões são: os brancos descendentes daqueles brancos que se beneficiaram de um sistema injusto no passado, os malfeitores; e, como todo bom conto, precisa também de mocinhos: os negros descendentes dos negros subjugados, aqueles que foram impiedosamente maltratados como escravos naquele mesmo passado onde o vilão branco da mesma maneira existiu. De modo que os primeiros compensam os segundos.

Mas e os brancos pobres? Ah, meus caros, a UnB está se lixando para eles; são uns condenados eternamente pela sua ascendência criminosa... Ainda que eles sejam a esmagadora maioria dos pobres no Brasil, e não sejam, de nenhum modo, herdeiros do mandonismo dos senhores de engenho.

Isto se chama 'patrulhamento politicamente correto'; ou injustiça que se sobrepõe à injustiça anterior; tanto faz!

É uma pena que as pessoas conscientes, igual a tantos, talvez iguais a nós, ou a qualquer um que poderíamos conhecer nesta mesma sala, não sejam levadas em conta neste país. Parece que para esta nossa sociedade positivista e ‘cientificista afrancesada’ na qual estamos inseridos, mais vale protestar, esbravejar e falar algumas palavras bonitas e de ordem do que estudar profundamente o assunto, refletir sobre ele, sopesar, dar tempo para o cérebro assentar as ideias formuladas e, por fim, debater no intuito de verificar um consenso que vem diretamente da consciência.

Devemos sempre admitir que tanto o sucesso como o fracasso façam parte de nossas vidas, e, assim, tentarmos melhorar com sinceridade. Não vamos acertar o tempo todo, talvez nós acertemos pouco nesta vida, mas agir por comoção de grupos abomináveis e irresponsáveis que só querem tirar proveito de conveniências políticas é, desculpe o termo, coisa de canalha também. Remete ao velho jargão bíblico: "Diga com que andas que eu te direi quem és”.

Eis o que penso, colegas; 'hic'”.

Como vê, meu amigo e minha querida amiga que está aí a ler estas linhas antagônicas, o tema é polêmico e difícil, mas muito do que já tenha sido dito por jornalistas 'militantes' e críticos de fantasia esteve nesta tarde patusca; e, afinal de contas, o 'tratado das cotas' nada mais é que a reflexão desta nossa valorosa sociedade – e ainda mais afetado quando regado à cerveja ou outro etílico de boa cevada. Portanto, paremos por aqui este pensamento desagradável. As palavras vão terminando porque as ideias são emprestadas e a consciência pediu exame. Enfim, então vamos mesmo às curiosidades de artistas de TV.


Por Ricardo Novais

Judas do Brasil

O Presidente da República concedeu nesta quinta-feira uma entrevista, ao jornal Folha de S. Paulo, onde respondeu muitas perguntas ora de forma contundente, ora de forma extenuada, ora de forma prudente, em outros momentos demonstrou-se perseverante, mas em boa parte da sabatina foi ambíguo – como é de seu peculiar feitio de bom brasileiro.

No entanto, não estou aqui para avaliar o pensamento político e muito menos as esperanças do mandatário da Nação. O Governador do Estado de São Paulo já deu uma boa definição sobre a tal entrevista: “Mostrou o Presidente de ponta a ponta, na forma e no conteúdo (...)”, disse o atroz bandeirante que é postulante ao cargo de próximo ‘ponta’ da nação. Ademais, queridíssima dona leitora, caso queria ler e avaliar por si mesma as respostas do Presidente da República, eu forneço-lhe agora o link do jornal: http://www.folha.uol.com.br/; mas se preferir ler os estímulos 'filosofo-sociais' do nosso grande 'estadista' em papel impresso, então vá, ou mande o caríssimo leitor, vosso marido, à banca de jornal e compre o tablóide paulista.

É que escrevo este texto por um aforismo feito pelo Chefe deste País e que me deixou acabrunhado. Não por questões de ordem religiosa; para mim pouco importa a fé do Presidente, se ele segue o 'monoteísmo' ou o 'multi-partidarismo', ops!, quer dizer, 'multi-teísmo' ou mesmo o 'ateísmo'. Mas é que, de fato, fiquei confuso com as seguintes palavras: “Se Jesus viesse para cá (Brasil), e Judas tivesse votação, Jesus teria de fazer coalizão com Judas”, foi isto que disse o Presidente e atormentou o meu pobre espírito.


Judas Iscariotes – não confundir com o outro Judas, o Tadeu – foi amigo e discípulo de Jesus, autor da maior história de traição já registrada na humanidade. “Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse: Que me quereis dar, e eu vo-los trarei? E eles lhe pesaram trinta moedas de prata e desde então buscava oportunidade de entregá-lo”, (Mateus 26:14). Os príncipes queriam Jesus, Rei dos Judeus. Jesus previu que um dos discípulo iria traí-lo e fez uma advertência: “Aquele que haverá de trair-me o melhor seria que nunca tivesse nascido”. Judas, assustado, imediatamente perguntou: “Acha que sou eu mestre?” E Jesus respondeu: “Tu o disseste!”

Judas era um homem casado, pai de vários filhos e discípulo de Jesus. Convidado para exercer o cargo de tesoureiro no ministério de Jesus, ele aceitou a incumbência divina – ele foi o "Ministro da Fazenda" do Chefe dos cristãos.

Durante os três anos que Jesus exerceu seu ministério aqui na Terra, Judas carregou o alforje que continha as economias da pregação do Filho de Deus por essas bandas. Jesus considerava Judas como um bom e fiel amigo. De fato, Judas Iscariotes estava vivendo a melhor época de sua vida.

Ele começou a observar todo aquele dinheiro entrando no alforje e nasceu no seu coração o desejo de possuir aquele dinheiro. E fazendo isto, Judas atraiu para si uma grande maldição.
Como se percebe, Judas não era um mau-caráter. Segundo as Escrituras, ele apenas cumpriu uma sentença: o papel sagrado que fora escrito por Deus. Jesus Cristo, que sabia (e ainda sabe) de tudo, sabia disto também e, por isto mesmo, o perdoou.

Portanto, meus caros irmãos brasileiros, podemos pensar que cada um faz coalizão com o Judas que merece (ou que votou). Resta saber, no entanto, quem perdoará; você?!


Ricardo Novais

Prova de Ética

A prova do Enem deste ano, exame individual oferecido aos estudantes que estão concluindo ou que já concluíram o ensino médio em anos anteriores, foi cancelada. A decisão de cancelar a prova foi tomada por Fernando Haddad, Ministro da Educação, após ter sido alertado pela reportagem de O Estado de São Paulo sobre a quebra do sigilo do exame. "Há fortes indícios de que houve vazamento, 99% de chance", afirmou o presidente do Inep.

Na tarde de quarta-feira, 30, o jornal paulista foi procurado por um homem que dizia ter duas provas do Enem que seriam aplicadas neste próximo sábado e domingo. Propôs entregá-las à reportagem em troca de R$ 500 mil. "Isto aqui é muito sério, derruba o ministério", garantiu o tal homem.

O Estado de São Paulo consultou a veracidade do material, não se comprometendo com a sua compra – segundo as fontes do próprio jornal.

O ministro Haddad confirmou o vazamento ao consultar técnicos do Inep, órgão do ministério responsável pelo Enem. As questões originais estavam guardadas em um cofre, que foi aberto ontem à noite para confirmar a informação: sim, eram idênticas, fraudaram o exame!

Este fato, uma fraude, pode até ser grave, mas, a mim, o que mais chama atenção é a atitude do jornal O Estado de São Paulo. Deu prova cabal de credibilidade e lisura de sua linha editorial; o que não é de se espantar, basta nos lembrarmos do francês fundador da instituição, ainda denominada A Província de São Paulo, que saia pela região a cavalo soando uma corneta e dando as notícas para a população da época, assim como da ética do então jornalista deste jornal Euclides da Cunha, que relatou com honestidade, às vezes até subjetiva, as atrocidades ocorridas na Guerra de Canudos.

Ora, senhor leitor contestador, está bem, tens razão; o francês da corneta só vendia seus jornais aos salões nobres ou das ascendentes burguesias; e Euclides da Cunha levou para Canudos todos os preconceitos de uma sociedade que tinha no pensamento galicista os seus ideais – principalmente no de Joseph Arthur Gobineau, autor de Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças, tida como a bíblia do racismo moderno e que influenciou a chamada Era do Racismo Científico, com suas ideias de “embranquecimento” e europeização da população brasileira. Mas, pelo que consta, o jornal O Estado de S. Paulo e seu correspondente Euclides da Cunha se retrataram da cobertura infundada da imprensa sobre os jagunços de Antonio Conselheiro – Euclides escreveu até mesmo Os Sertões, onde fica evidente o avanço sobre a sua visão de mundo.

De qualquer modo, será que outros órgãos de imprensa abraçariam uma atitude parecida com esta adotada pelo Estadão neste caso do Enem? É de se pensar...

E é de se cumprimentar o jornal O Estado de São Paulo – mais que de jornalismo deu prova irrefutável de ética. Podemos, até mesmo, continuar ainda acreditando na imparcialidade de nossos veículos de comunicação, ao menos em alguns momentos e em alguns deles...


Por Ricardo Novais

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