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A angústia de se viver

Quando a vanglória é o assassinato de um homem, seja este quem for, deve ser porque a angústia já tomou conta do mundo... A angústia de se viver*. -- Foto: Google Imagens.
Matutando em Kierkegaard, que foi, em tantos aspectos, o arauto destas espécies de experiência vivida e, de qualquer maneira, um excelente conhecedor em matéria de angústia; escreveu a este respeito, que “o nada, que é o objetivo da angústia, assume, de alguma maneira e progressivamente, figura de realidade. (...) O nada da angústia é, pois, neste aspecto um complexo de pressentimentos que se reflete em si próprios e se tornam cada vez mais próximo do indivíduo”. Enfim, parece bom refletir sobre o aforismo deste filósofo; pois podemos pensar que este nada da angústia derruba e violenta os conceitos estratificados.

Já Schopenhauer diria: “viver é sofrer”. Concordemos que a vontade humana é concebida como algo sem qualquer meta ou finalidade, desta maneira, gerando uma inevitável dor. O prazer é apenas um momento fugaz de ausência da dor,  porém, desgraçadamente, nosso júbilo é sempre instável, finito e temerário. Um tanto quanto pessimista em relação ao circuito da vida. Mas, eis que é fato, a elegância e a extravagância da maldade, devagarzinho, virem e se encarnarem na rotina e na trivialidade da sociedade.

Posto, com efeito, que não sou o arauto deste grande circo de horrores; por isso, como diz Nietzsche, “os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias, dirão à vida: uma vez mais”. Assim, benevolência, afeição, objetividade, humildade, subserviência, piedade, compaixão, amor ao próximo, constituem valores inferiores, pelo orgulho, pela altivez, pelo risco, pela personalidade criadora, pelo amor ao distante. O negativo subsiste somente como invasão própria à afirmação, como a crítica cabal que acompanha a criação. Em todo o caso, em Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral, do mesmo inquietante Friedrich Nietzsche, leva-nos a crer que vivemos num contexto mesmo extravagante, mas de cidadãos obedientes, com espírito que impede a evolução de uma cultura livre, tornando-a deslumbrada e estereotipada; ou, como diz o próprio homem que têm seus escritos e si próprio fora do tempo: “alguns nascem póstumos”, outros têm “obrigação de mentir segundo uma convenção sólida, mentir em rebanho, em um estilo obrigatório para todos”.

Mas ora, leitor amigo, valendo-me, por esta hora, do poeta Augusto dos Anjos, que alguns, desde tempos remotos até o atual, qualificaram como marginal; este magnífico poeta, também da angústia, declamaria: “Tenho uma vontade absurda de ser Cristo / Para sacrificar-me pelos homens!”.

Por Ricardo Novais
* 'A angústia de se viver'; capítulo CLI de O BoêmioRicardo Novais, Bookess, S. Paulo, 2010.

O novo convertido

'A sofrida conversão de Santo Agostinho', de Fra Angelico, Museu Thomas Henry. 

Canis qui memor Suzy. In memorian.

‘Oh, Deus! Salve-me! Se ainda penso tanto... Pois ainda assim, complexo calcular como o Criador anteviu a existência. O mais vil escravo das paixões perniciosas descobre a certeza, assim como eu agora, de que existo. Que sei que existo independente de qualquer fantasia ou imaginação. Existo porque preparei a existência antes; ou existo porque Alguém a preparou para mim. Não posso estar enganado quanto a isto, e, se me engano é porque existo. Se eu não existisse não poderia me enganar. Portanto, se me engano, logo existo!

Não posso estar errado diante do exposto também, pois se estiver, mesmo que esteja errado, não poderia negar a minha certeza de que estou errado; e logo, de que existo. Eu sei que existo, e também sei que sei. E isso me causa grande alegria, pois não estou errado quanto ao fato de existir e saber disto; e conquanto exista, logo sou capaz de amar, aptidão que adquiri ou conquistei. Pois, mesmo que o amor por seja demais ilusório, ainda seria um fato amar as ilusões.

Entretanto, de nada vale saber que existo, de saber que sei que existo, senão saber se quem existe dentro de mim sabe que eu existo. Se a ilusão do amor, que adquiri ou conquistei, não souber para que seja este amor; de fato, de nada vale. Por mais que haja força de existência e capacidade da ilusão do amor em abundância, não é o suficiente se não soubermos: para o que serve esta força?

E como os rios que sabem o seu curso, embora as cheias não saibam, a força fica armazenada e estancada em quem a recebeu. Porque não sabemos para que seja e para que sirva a existência, e para que seja e para que sirva a capacidade da ilusão do amor, forma-se, então, lentamente, um movimento voluntário para dilatar nossa força-existencial e a aptidão ilusória do amor. A isto chamamos de... paixão!

Estamos diante de conteúdos preciosos, que não desvendamos nem dominamos o saber de suas forças; estagnadas se acumulam, ao passo que se evadindo fluem pelo pensamento por oscilações espontâneas. E seus caminhos são veementes de ardor, posto que sejam instintivas e sem controle.

Quanto maior seja a força-existencial e maior seja a capacidade da ilusão do amor armazenada, tanto mais serão os artifícios da paixão. Contudo, quanto mais o movimento da paixão conseguir canalizar, naturalmente, essas forças nobres, menos serão as armadilhas de sofrimentos. Porém a paixão são os movimentos voluntários espontâneos do pensamento, logo é de difícil influência, sendo árdua a sua canalização. Portanto, o sofrimento sempre será relativo ao fato desencadeante do pensamento e, naturalmente, inerente ao quantitativo da competência da paixão no domínio das forças existenciais.

Os estoicos fingiram poder rir das desgraças, serem insensíveis às paixões, às perdas matérias ou dos entes queridos, serem indiferentes à morte, não se deixarem abater pela tristeza ou pela dor, muito menos pelo prazer. Eles fingiram sentir todas as desgraças e todas as glórias sem derramar uma lágrima ou sem dar um único grito. Seriam sábios, se não estivessem fugindo ao fato que o homem existe com toda sua condição humana.

Admitamos que o homem sábio não exista, portanto, é incapaz de experimentar a perfeição e o heroísmo sem estar acima do tempo; mas sabemos que somente Deus está acima do tempo talvez por isto mesmo digam que Ele é sábio. Enquanto isso, eu que sei que existo, sem juízo, grito o mais alto que meu próprio silêncio, desesperadamente. Os rios correm por meus olhos deixando marcas secas, e meu coração petrifica pelo simples fato de não saber mais se ela ainda existe, e, de agora por diante, de não saber se eu também ainda existo. ’

Por Ricardo Novais

* 'O novo convertido'; capítulo XVI do romance 'O Boêmio', Ricardo Novais, Bookess, S. Paulo, 2010.

CorraAtrásDessesLivros - No Bule

Campanha: CorraAtrásDessesLivros.

Atendendo ao gentil convite do Mauro Siqueira, estou lá no blogue literário O Bule, juntamente com os escritores André Luca, Bruna Maria, Paula Cajaty e Ricardo Bruch, falando de livros e autores na campanha: CorraAtrásDessesLivros. Que alegria este convite, sempre bom é falar de livros – principalmente daqueles que gostamos. Mas se eu ficasse aqui falando de obras e autores que, de alguma forma, eu tive contato, enfadaria rapidamente o leitor citando e citando, de Flaubert a Süskind, de Manuel Antônio de Almeida a Simmel, e por aí vai... De modo que isto seria tão-somente vaidade bolofa de minha parte; e as obras que minha memória elegeu como essenciais ao espírito são períodos decisivos que marcaram e fizeram – e ainda fazem – com que o meu gosto pela escrita se iniciasse e se mantivesse. Leitores sempre serão também escritores. No entanto, ler Machado, por exemplo, faz com que a minha pretensão de escritor fique em seu devido lugar de "eterna situação de aprendizado" – aliás, eu só me declaro escritor por imaginar aquele maldito bruxo se contorcendo desdenhoso em seu mausoléu. Desgraçado! Isto é a minha vingança por ele ter zombado tanto de mim e de outros tantos leitores, por certo.

Para ver as obras que os escritores elegeram lá n’O Bule, clique aqui.


Mas e quanto a tu, amigo leitor, quais os livros que fervilham as tuas entranhas? Peço a minha querida amiga leitora, sempre formosa e engenhosa, que conteste as obras; é que reverencio muito mais o gosto feminino pela literatura...


Um abraço,
RN.

Recomeços...

Pôr-do-sol beijando a Baía de Guanabara. Foto: GEMERSON H DIAS.Site: olhares.com.

Último dia de mês, primeiro de algum recomeço. Estou de volta aos meus velhos sonhos ardilosos e novas esperanças vazias; sempre recorro a mim mesmo – ente este qual, às vezes, sinto tanta falta de decisão.

Amanhã não quero que me perturbe mais, ó vida! Quebrei hoje as letras de qualquer história, joguei qualquer sentimento pela janela. Não me perturbe mais! De agora em diante só quero a sorte de um sorriso calmo e alguma boa dose de bebida sensual, uma vida que valha alguma alegria mais leve. A única estrutura que eu aceito que balance é a do coração.

Obrigado, meu Senhor, por ter me mostrado algum dom. Obrigado, meu Senhor, se hoje eu sei quem eu sou – e ainda encontro a mim mesmo. Não é grande coisa, por certo; mas, em meio a toda minha hipocrisia, isto é tudo. Os elogios dissimulados e tapinhas às costas são meu grande reconhecimento, à grande honra! Eu só quero domar a imaginação e desvirtuar a realidade; nada mais, nada menos. Causa-me esplêndida impressão estes sonhos que transformam alguma vida com alguma palavra, alguma letra, rabisco, rascunho, linha...

Ninguém pega um caminho incerto qualquer por acaso do imponderável; tudo, e o resto, é tomar uma decisão.


Ricardo Novais

Convite ao Letras et cetera

De fato, causa-me muita alegria dizer que foi publicado no Letras et cetera, excelente página de literatura, um conto escrito por mim quando a cabeça pensava no primeiro amor. Primeiro amor... Lembra-se leitor de tua namoradinha de tempos remotos? A querida leitora certamente há de se lembrar da paixão quase infantil; não é mesmo? Visitem a página, garanto que apreciarão o formato; é boa a letra! Além de que sempre agradável é relembrar de algum amor incerto e perdido no tempo ou no espaço.

Para ler o texto clique aqui.

Convite a'O Bule

Convido-os para lerem um texto que escrevi e foi publicado n'O Bule, espaço de literatura. Visitem, leiam, comentem; tudo é permitido em pensamentos incertos entre a cabeça às nuvens e os pés ao chão.

Para ler o texto clique aqui.

Reflexão do Camundongo

Imagem do Site: Ciência Portugal.

Hoje de manhã, andando pela rua, vi do outro lado da calçada uma moça belíssima. Meus pensamentos, que até então eram esparsos e vazios de novidade, voltaram-se para àquela figura agradável e que enleaste minhas primeiras horas do dia. De modo que fiquei, em certa altura, admirando o desenho dela à calçada, e esta ao lado do muro escolar próximo ao ponto de ônibus e à estação do metrô.

Se eu obedecesse ao prazer de meus pensamentos, ficaria no outro, sem nunca ter iniciado este post. Mas não há lembrança que não se sobreponha à outra, se esta for menos agradável. E esta é. Sendo assim, meus olhos viram, à distância pouca e entre as máquinas de outro homem, uma manchete de jornal online: “Cientistas Criam Vida Inteligente”. Foi isto que me fez esquecer a bela moça que andava elegante e despretensiosamente pela calçada oposta à minha.

Maldito gênio matinal que me tirou memórias deleitosas!... Fui então à minha máquina tomar conhecimento da notícia científica com maiores pormenores. Tratava-se de afirmação polêmica de médico italiano e seu colega norte-americano cientista de novas mídias, fundamentados por filosofia de Königsberg, de arriscada experiência biológica que promove a capacidade de um ser, de vida natural, em armazenar todas as informações existentes no mundo, usá-las e comunicá-las com recursos céleres.

O jornalista que escreveu o artigo, por certo tão preparado quanto os que lêem tais notícias, expunha que a Igreja Católica manifestou-se contrária a tal manipulação genética e que a classe política internacional é avessa ao conhecimento geral. Mas foi a declaração do rato, cobaia no experimento de criação da vida mecânica baseada na vida natural com capacidade de guardar dados, que causou a maior controvérsia. Verídico, leitor; não foi uma declaração oral, mas ocular. Havia uma fotografia abaixo da manchete e ao lado do texto, “Cientistas Criam Vida Inteligente”, onde se podia perceber toda a reflexão do camundongo. Verdade que as fotos não falam, talvez nem seja aptidão dos camundongos a organização cerebral; entretanto, via-se nos olhos arredondados e profundos do calunga a meditação de especialista em ciência e em opiniões tecnológicas.

Eis qual foi o solilóquio do rato:

“Este meu dirigente sofista quer criar vida... E inteligente! Estais a brincar de Deus. Meu querido diretor não se importa com pudores religiosos nem morais. Ousado és tu, tenta criar vida humana a partir de meus poucos esforços intelectuais... Clona-me, portanto. Não há de ser nada. Enquanto estudas teus experimentos, vou ajuizando que teu império não vale muito; sou eu quem me alimento de teus inventos quando estes forem tão-só lixo. Sou eu o protozoário que transmitirá tal parasita ao hospedeiro intermediário para que no futuro chegue ao hospedeiro definitivo. Além de que não tenho tuas angústias, amigo cientista, nem tuas implicações éticas, muito menos teu ‘papel de Deus’ criador da vida clarividente estimando (in)sensivelmente quantos fetos, ou bebês, defeituosos serão descartados na disputa do pioneirismo da clonagem existencial de ser arauto de todas as notícias da Terra – é de teu ofício, senhor, esta linha de montagem industrial... Fosse de meu encargo este experimento, eu o faria na tentativa de estabelecer conservada a ordem universal, como já existe, assim prolongaria também o tempo de modo a atingir teu objetivo de acumular e processar todo o conhecimento ungido sem nada perder-se no processo. Mas nunca como tu, cientista de razão pura, ambicionando criar tal antropocêntrica enciclopédia de acessos ultra celerados.”

Vi esta imaginação na imagem, nem tão grande nem tão curta, daquele camundongo que apareceu em artigo de jornal editado pela internet. A própria reflexão resignada apareceu nas retinas dele, pouco cáusticas e mais sinceras; pobre diabo! Não pude ver-lhe o gesto na fotografia, nem ouvir-lhe palavra ou cogitar-lhe outro julgamento; apenas pude ler-lhe os olhos arredondados e profundos.

Eu ri do rato, ele também riu de mim. Depois fui ter em outras coisas, outras figuras de moças belíssimas, outros pensamentos esparsos, enfim, fui cuidar da vida; vida esta tão celerada que consta já sofrer de ‘síndrome da fadiga da informação’. Maldição de 'Weil'? Ou será apenas a ação natural do 'toxoplasma gongii'? Aquele camundongo de ofício cobaia nada mais pode dizer; é que assim que ele alcançou a natural liberdade, tornou logo a antigo litígio com um felino, certamente hospedeiro intermediário, já seu conhecido.


Por Ricardo Novais

Salve, Jorge da Capadócia!


Quadro antigo de São Jorge pendurado por prego enferrujado no solar da velha casa de fazenda da senhora minha avó, carola de Santa Maria do Rio Abaixo.

Salve o jovem Jorge da Capadócia que, montado em seu cavalo branco, vai à caça dos dragões por todos nós. Dia 23 de abril, vê-se todo o Rio de Janeiro, toda São Paulo, toda Belo Horizonte e cercanias das mais longínquas nas igrejas, orando, agradecendo ou implorando à graça; tradição herdada dos nossos antepassados lusitanos. Não deve ser diferente também na arquidiocese de Boston, Munique, Dublin, Canal da Inglaterra, da velha Itália, Áustria, Suíça, polacos, eventuais russos e até a gente turca, grega, viking e dos países baixos. Enfim, aquela consagrada esperança misteriosa do mundo ocidental que nos forma como povo.

Neste pedaço gigantesco de terra onde vive tu, amigo leitor, vive também este desgraçado autor, aprendemos quem somos nos bancos redentores de cravo preto. Como todo brasileiro, mesmo que postiço, São Jorge toma-se e confunde-se nesta civilização. Povo bonito, sincero, cândido que guarda tesouros exuberantes. De igual modo povo esperto na fé, cruel nas lágrimas, ambíguo nos cochichos. Nem mesmo o cavaleiro da promiscuidade, Rousseau, também pai do civismo moderno, poderia entender estilo de vida menos verde que amarelo. Deste modo, eu, que jamais me interessei por entender trâmite de sociedade alguma, atrevo-me a adivinhar as riquezas escondidas nos cantos da alma seguindo as festividades afortunadas da minha boa família católica; embora, não haja nesta sucinta e despretensiosa digressão o porquê de deixar de ser sincero, devendo reconhecer, então, como arquiteta secretamente o leitor, que eu pendo à boa farra. Mas deixe isto de lado que é outra história...

Oh, o que é isto? Que revolta! Ouço vozes... Sinto-me pressionado; digo, repito, grifo que escrevo este post sobre história santa, mas a dona leitora insiste em querer romance, eventuais traições e aventuras com perdoes e lágrimas de paixões arrebatadoras. Não gosto de gente que insiste em dar opinião em enredo que ainda está sendo escrito. “Vamos, narrador de uma figa, vamos logo à vida do mocinho. Faça logo sofrer a mocinha, senhor autor. Onde estão os garotos que sofrem? E o vilão, cadê?” – É isto que quer a amiga que deveria apenas ler as linhas e não se meter a dar palpite nelas. Se quiseres tu escrever o texto, levanto-me da cadeira e ponho-me a ler tuas ideias; serei eu seu mais fiel leitor, querida leitora. Mas a história que me propus a descrever é a de fé em santo respeitado, vitorioso, santo católico; São Jorge, o mais guerreiro e corajoso dos guardiões do santo ofício que tanto clama por salvação nestes últimos tempos. Coisa séria, coisa de minha responsabilidade, e minha consciência não garante invencionices, eufemismos ou coisa que deforme por demais instituição milenar, como apreciam alguns da imprensa, das igrejas protestantes e lá para os lados do outro mundo, o mundo mulçumano. Além de que, senhora amiga, não quero eu ser desmascarado por falso testemunho.

Tenha paciência, tenha paciência.

Flagelo-me também por não fazer da leitura uma agradável aventura, mas é que São Jorge perfaz o viés de uma vida de redenção, de modo que sem fé não haverá o leitor como compreender nenhum ator que figura saga promíscua... Talvez, mais para o futuro, em outra história, outro post, quiçá até outro blogue e autor mais amarelo, haja algum prazer ou algum apreço por estas linhas... Talvez haja...

Em nenhuma hipótese aceitarei que a senhora mude o curso da narrativa com vossa amabilidade e doçura; embora eu admita que goste de visita, não significa belo tormento. Aceito vossa sutileza e charme, senhora amiga que lê, entretanto, contenha-se! O caso aqui é mais de fidúcia monástica; caso de base, alicerce, fundamento que tanto faz pedir como agradecer; contrastes dos reles humanos sem vocação de santidade.

Por fim, acatando ao pensamento, valendo São Jorge, quero aqui ser apenas humilde fâmulo de Deus. Apenas um criado, servidor, clérigo leigo a serviço da residência episcopal no qual se perturba com as aflições dos homens.

Faça-se presente, São Jorge da Capadócia...

“Ó glorioso São Jorge! Tribuno militar e cavaleiro romano, vós tínheis pela frente brilhante carreira; mas a fé vos disse que devíeis lutar por Cristo. E vós protestando contra o edito de perseguição do imperador Diocleciano, trocastes a espada de soldado pela espada da cruz, e declarastes guerra ao paganismo.

Tombastes mártir de Cristo, mas vosso martírio foi o golpe que transpassou as fauces do dragão.

Glorioso São Jorge! O dragão que vós pisastes tenta reerguer-se. O dragão do paganismo moderno arremete com furor contra a humanidade. Imploramos vossa defesa e proteção! Conservai nossa fé. Corrige aqueles que usam o vosso nome para enganar seu próximo com práticas hipócritas de um sistema social e econômico contrário a fé que vós defendestes.

Milagroso São Jorge! Ajudai-nos em todas as nossas dificuldades. Defendei-nos do dragão infernal e livrai-nos de todo o mal.”

Amém!


Por Ricardo Novais,
Servo de fé.

A Capital do Brasil








Moeda comemorativa em celebração ao cinquentenário de Brasília, em 2010. Ora, amigo candango, vale mesmo R$ 5,00?! (Foto: Divulgação).


Doutor Lacerda, político de nacionalidade e carioca de ofício, vive na cidade de Brasília, capital do Brasil. Não há gente em Brasília. Lá não é bonito, nem feio; o lugar todo é sem rosto. Aqueles 2 arquitetos consagrados quiseram dar devaneio próprio à cidade, não humanidade, não beleza notória; há lá o senso incomum, misterioso, precisamente subjetivo a quem é gênio da modernosa arquitetura contemporânea.

Lá não é lugar de colocar lixo, nenhuma sujeira. Tudo que o homem quer livrar-se não foi e nem vai para Brasília; ao contrário disto, frequentemente os resíduos limpos fundem-se numa única opção daquela terra demasiada cauta e alastra-se para as outras entidades federativas onde, de fato, vive o povo encardido e clementíssimo. Dizem que tudo que é ruim não estaciona na cidade; mesmo o diabo só vai lá apressado e tão somente de passagem. Os jornais enaltecem a cidade, mas acusam os homens. Ora, não há homem morando, construindo vida ou simplesmente passeando na capital. Ela não foi projetada para isto.

Brasília é parte do Gêneses, primeiro criou-se a rua, a casa, a luz elétrica, a água encanada, em seguida as relações e por último o homem. Depois houve descanso. Pasme, leitor, ou confie neste autor: naquele conjunto urbano a condição humana é mínima e, em certo sentido, desnecessária ao progresso desta nossa pungente sociedade. Não! Querida amiga, não tome isto por bravata ou pouca fé de minha parte; deito aqui umas linhas que, se por um lado são frouxas, também são as atitudes de alguns personagens que já são fantasmas – ou quase.

As figuras e personalidades que, de vez em quando, surgem na paisagem brasiliense é porque não tiveram, e nem têm, outra alternativa; seus notabilíssimos arquitetos bem que tentaram evitar que o cidadão comum exale fragrância de sua vida pelo planalto adentro ou respire o ar diplomático, porém alguém há sempre de por lá passar em vontade forçada. Mas só de relâmpago e por conveniência política ou inter-pessoal...

Há muitos anos, Doutor Lacerda foi a uma festa no entorno do Distrito Federal. Encontrou lá coisa diferente da urbe planejada e concebida para ser a “rainha do Planalto Central”. No distrito de Tabatinga, no entanto, entre casas sem o mesmo projeto e perspectiva da famosa vizinha, também alguma violência, achou povo alegre e pouco refinado. Em churrasco de Zé Índio, naquela periferia da unidade da federação, doutor Lacerda esbarrou com moça de pele morena, olhos arredios, semblante desconfiado e que carrega o mesmo nome do pueril local onde nasceu: Paranoá.

Paranoá foi moça bela, exuberante nas formas e pitoresca nos gestos. Foi, porque já é morta. Doutor Lacerda sofreu crise de consciência. Tivera ele um caso com a bela indígena filha de construtores paraibanos que nada conheciam de arquitetura. Contudo, mesmo Lacerda em nada tinha desígnios da FUNAI ou outra entidade defensora daqueles subjugados pela história. De modo que o Distrito Federal também não é lugar para admoestações das angústias humanas – afinal de contas, como já compreendido pelo amigo leitor, não há lá espaço para humanos.

Embora tivesse cadeira na câmara dos deputados, Doutor Lacerda suprimiu a habilidade política e naturalizou o fruto de Paranoá. Nunca soube se a filha que nascera tinha mesmo seu sangue, mesmo assim ele pousou com gosto para os retratos sorridentes e lustrosos de ONG's dirigidas por paladinos da virtude e da justiça republicana.

A criança ainda é bebê; engatinha, chora, depende do pai. Porém dá mostras claras da fascinante herança recebida. Do lado materno, puxou a beleza e a graça selvagem; do deputado Lacerda veio a destreza nos gestos pouco imbecil e nas palavras firmes de caráter balofo que, entretanto, ainda soam confusas por causa da pouca idade. Unânime é a opinião que ela será moça de grande talento, a maior estrela numa constelação brilhante de muitas outras estrelas.

Quem cuida da pequenina Michelle é dona Iasmim. Sim; a menina chama-se Michelle La Bruiderot Lacerda, homenagem a avó galiscista do doutor deputado. Madame Michely criou Lacerda, seu único neto, em um palacete do bairro Peixoto, no rio, depois que os pais do infante morreram num desastre de navio em cruzeiro. A velha permitiu o lado imaturo do órfão, assim como a fragilidade de personalidade, o seu imobilismo e, principalmente, o seu medo da autoridade dela, mas, ao mesmo tempo, incentivou-o à ingenuidade dissimulada e à tirania necessária. Quando, porém, morreu a "vovó mãezinha" francesa, Lacerda já era doutor e, por circunstância dos novos caminhos democráticos da república, foi morar no Distrito Federal.

Casado com a política, ele deixou a filha a cargo de dona Iasmim. Esta senhora não era babá de ofício, mas de vocação. A menina sorria-lhe mais que para o próprio pai. Algumas vezes quis mesmo chamar a mulher de mãe, mas não pode; as crianças reconhecem bem seu destino.

Neste último final de semana doutor Lacerda resolveu visitar o seu Botafogo no velho ‘Maraca’. Saiu de lá tão feliz com o título de "campeão" que resolveu que a filha deveria ser criada no calor humano do Rio de Janeiro e não na impessoalidade de Brasília.

Justamente no dia de hoje ele informou, pagou e agradeceu dona Iasmim pelos préstimos afetivos à Michelle; esta ficou deveras sentida pela separação, contudo, não consta que tenha derramado lágrima. Já a menina, em 3 ou 4 horas, emagreceu, não sorri mais, chama por dona Iasmim, e  incrível! – sente falta dos ares candangos imparciais.

Do “Plano Piloto” não há registro de tese para o sentimento humano – ali deve ser apenas a capital do país, a universidade, a Igreja, toda a gente que construiu a região sabia, e ainda sabe, disto. Realmente são 50 anos em 5... Não obstante, o que não se poderia imaginar é que seja em $5 reais – ou $5 cruzeiros, dependendo da imortalidade do personagem e do tempo.

Já doutor Lacerda, o velho político, tem muitos planos profícuos para sua filha. Sucesso e prestígio; visita-a, sem maiores afagos, de vez em quando... O fruto candango que não vive próximo a árvore que o gerou, e que ainda é muito jovem, cresce a cada dia com frieza de origem e calor artificial... Mas, enfim, seja como for já há até aniversário, porém a menina Michele não sabe se irá comemorá-lo.

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Breve história da cidade de Brasília-DF:


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Em homenagem ao doutor Lacerda, o tradicional e superticioso torcedor botafoguense que queima a camisa, joga-a ao chão, mas nunca abandona seu clube - A 'Estrela Solitária' brilha ainda mais no "Clássico da Rivalidade":


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Embora seja outra história, os vizinhos do doutor Lacerda, em Brasília desde o dia 7 de dezembro de 1987, reclamaram do autor deste blogue atenção ao título do Coritiba Football Club. Entretanto, este texto é sobre assunto diverso deste; a sorte é que aprecio futebol. Além de que não há de fato muitos paranaenses por aquele planalto federal (considerando que todos estão de passagem), de modo que em simpatia aos 'Coxas Brancas', eventuais leitores desta página, e também por serem uns poucos segundos de emoção, apresento-vos o sensacional "Atletiba":


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O leitor candango deve estar decepcionado com este texto em dia tão glorioso à história do Distrito Federal. Também eu estou. Poderia enaltecer mais a ordem e a civilidade da cidade sem povo, ou a coragem, inteligência e genialidade de seus construtores. Oh, quiçá se tivesse ficado apenas naquelas sábias considerações drummondianas; teria apenas ater-me-ido ao desejo prudente de escrever algo belo sobre nossa capital. Mas é que também eu nunca estive lá... Digo tudo, vá! Jamais viveria em uma cidade onde não há esquinas; pois se não  existem esquinas, não existem lá botecos. Eis todo o mal.

Por Ricardo Novais

Siga o Sol


Imagem: Prosa em Verso.

Poupo-vos as lágrimas da leitora, as minhas, a dos que escrevem... Falo apenas da morte, sem velório, sem velas cansadas e cantochões clarividentes. Apenas a morte.

Se o ser humano é mesmo um ente que deva ser ultrapassado, morrer é tão somente a melhora da vida. A parte mais bonita do desenvolvimento... A monstruosidade da força, sem início, sem fim, que não é maior nem menor, apenas se transforma, ardente, sem nenhum cansaço e em eterna criação.

A morte leva tudo, menos os paladinos do discurso. Também deixa a obra criada por aquele que ela leva. Esta fica, brilhando como o sol ou como girassol a olhar o sol... Ou mesmo lavando a alma como a chuva. Realmente ela pode levar memórias, lembranças, esperanças, medos, sobretudo a “vida vivida e morrida”. Num cadáver entre quatro velas e muitas lágrimas, a morte apresenta-se ao lado com todas suas atribuições nefastas e também envolta em todas as liberdades benévolas do além-túmulo. Mas, ora, a morte é coisa extraordinária! Não a desejo tão logo, no entanto, admito que a reverencio, de longe...

Martírio das perdas irreparáveis, da falta do controle sobre a extinção da passagem terrena; morte, a paixão e a compaixão. Da cessação da vida, terno fim, um pesar profundo; confesso tudo, vá: deito nestas linhas minha própria situação frágil, reles, de destruição importante... Deixo aqui um pouco de mim, um pouco de vida que já se foi... Achar-se, em certo sentido, no fim, ou ver o fim antes dele chegar, na aflição da falta de forças motrizes, leva-me à emoção e sentimentos intensos, submisso ao desespero de saber-se impotente. Contudo, porém, vem a mim um entusiasmo muito vivo de amor muito abrasador; de certo, vício dominador, é o pesar que me desperta a desgraça, a dor minha ou a de outrem, a comiseração atingindo o ser existencial em piedade e que revolta... Revolta tanto!

O contato com tal perda irreparável se dá naqueles momentos inoportunos, confessa-te: "Não acredito, meu Deus, não esperava isto! Por quê?!". E não há 'mão de capivara'[1] alguma que traga de volta aqueles que jaz por nós esperam.

Não há ambição aqui de responder nem solucionar coisa alguma; atribua-se ao imponderável. No entanto, não culpemos a morte; ela apenas cumpre o seu papel, de buscar a alma; como o coveiro cumpre o dele, de enterrar o morto; as mulheres também têm seu ofício, de chorar ao velório; assim como os homens, que têm por obrigação discursar sobre e sob o cadáver alheio. Nada nem ninguém deve assumir a culpa pelos maus desígnios guardados aos personagens e ao ambiente que se frustrou; posto que a única fatalidade na vida seja mesmo a morte... Portanto, é factível lutar pelo destino; se o acaso deixará superá-lo é outra história. O que o Criador criou - aqui, neste contexto, conjeturando e aceitando a existência de Deus -, não obstante, deu à criatura verdadeiro poder de criação autêntica. E algumas destas criaturas fazem uso brilhante deste poder magnífico - é de dar gosto! Mas depois elas morrem. É aquela história de acima: cada um cumpre o seu papel... Ainda que sejamos o que tivermos que ser neste mundo qual podia ter sido, mas não foi; e que pode ser, mas não é. Ainda que tenhamos que carregar nossos próprios cadáveres às costas...

Eu sei que nada é compreensível, por isto estamos aqui refletindo sobre algo tão enigmático e fascinante. Sei também que não há morte que perdure uma vida inteira, nem de disputas nem de eternidade cônscia. De modo que apenas reverencio aqueles que perderam a voz e a chance nesta disputa. Faça o mesmo, caro leitor e querida leitora, sonhe com o desconhecido; há lá alguém que nos joga um sorriso. Morrer é da vida... E espero mesmo que exista algo no homem que não desapareça com a sua finitude humana.

Venha a chuva lavar a alma, num turbilhão de angústia imersa no coração, até que o sol distraia, perigosamente, nosso destino para fora de seu caminho natural... Devagar, iluminado, rasteiro, confuso, silenciosamente contrastando com a velocidade de um acidente demasiado existencial, o arco-íris insurgente depois de assombrosa tempestade faz pensar na imortalidade. Quiçá eu consiga ver um anjo de indumentária impecavelmente branca, se assim eu desejar; embora a covardia insista em salvar-me... Contudo, o que vejo não é sobrenatural nem anjo mensageiro e sim um angelical girassol que troca seu aspecto dourado e celeste por um semblante cândido; faz isto por generosa gentileza, apenas para que eu não me assuste muito com aquilo que minha sensibilidade não alcança. E manifesta-se como verdadeiro arcanjo bondoso, ciente da ordem Superior, e acalma-me: “Continue apenas, ficarás bem;  serás feliz!”.

Neste instante, abro a janela. De fato, logo pela manhã, o céu é azul e claro; e a noite é deslumbrante e estrelada. Deixo-me sorrir, sinto que a triste resignação quer dizer somente: haverá dias belíssimos! O tal anjo, devolvendo o sorriso, ainda diz: “Carinho não se pede”...

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[1] - 'Mão de Capivara': Lenda tipicamente paulistana, muito difundida ainda hoje nos bairros do além-Pinheiros e além-Tiete, na cidade de São Paulo, onde se acredita que um suvenir com o formato diminuto de uma pata de capivara, com pêlos e unhas, trará de volta entes queridos que já morreram. É um mito na qual as pessoas se apegam por não entenderem ou aceitarem a ruptura afetiva causada pela morte.

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Dedico este texto inteiramente, e com todo carinho, à memória da jovem e talentosa escritora Tatiana Monteiro, a querida Tati.


Por Ricardo Novais

Superior Scribbler Award



"What is a Superior Scribbler? One who employs mad skillz to communicate in this crazy, crazy world. Who pontificates, explains, memorializes & entertains. Who has a funny bone & is not afraid to use it. Whose cyber-crib we return to again & again, because it just feels right."

~ Melissa B. - The Scholastic Scribe ~


Fui angariado com o prêmio "Superior Scribbler", indicado pela magnífica blogueira Mia Palenza, do Blogue "Quando as Borboletas se Calam", coisa que muito alegrou-me e na qual fico extremamente agradecido. Contudo, devo repassá-lo seguindo as seguintes regras:



Cada Superior Scribbler (SS) deve passar o prêmio para 5 amigos que tenham merecimento;



Cada SS deve linkar o autor e nome do blogue de quem ele recebeu o prêmio;



Cada SS deve exibir o prêmio em seu blogue e disponibilizar o link para o Post Original que explica o prêmio;



Cada SS é convidado a visitar o post que explica a atribuição do prêmio e deixar um comentário, adicionando assim o seu nome à Mr. Linky List. Lá eles mantém uma lista atualizada de todos que receberam o prêmio. http://scholastic-scribe.blogspot.com/



Cada SS deve colocar essas regras no seu blogue.


Escolhi repassar este incrível prêmio "Superior Scribbler" às queridas amigas pela relevância de seus blogues:


1. Camila B Lopes do blogue: Caminhos de Camila;



2. Madame Cabaret do blogue: Madame Cabaret;



3. Beta Lotti do blogue: Beta Lotti;


4. Mônica Lima Falsarella do blogue: Crase sem Crise;

5. Vany Laubé do blogue: Mosaico Social.


Muito obrigado!


Por Ricardo Novais

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