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Andanças nos Bancos de Praça

Velho banco de praça vazio que só não é mais antigo que o bairro onde fica.
Foto: querida Tereza Duarte.

Em minhas andanças nas nuvens, surge uma lembrança imperativa. A infância. Já vai tempo... Tempo do PC 486, do sistema operacional com aplicativos bem definidos, de quando o mundo era dividido apenas em real e virtual; não como agora onde tudo se integra, ficando difícil distinguir sonhos de devaneios.

Lembro do Juninho, um amigo que morava 5 ou 6 casas à esquerda da minha. A mesma rua, rua dos adolescentes; embora eu fosse criança, o bairro já era juvenil. Juninho tinha 10 anos, eu quase. Éramos como irmãos, sempre juntos. Estudávamos na mesma escola, 2 ou 3 quarteirões da nossa rua.

Uma vez, fora da sala de aula, Juninho pediu-me ajuda na lição de matemática. Eu não sabia também nada de números, mas tinha que evitar que meu melhor amigo repetisse o ano e fosse para uma turma diferente da minha. Ajudei-o por egoísmo. A tarefa foi árdua. Ele não conseguia se concentrar, o futebol o distraía, o sorvete o fascinava, as bolinhas de gude sibilavam encantadoras em algum canto, o vídeo-game conversava com charme... Cheguei mesmo ao ponto de amarrá-lo num poste de energia elétrica e passar-lhe a lição do livro de exercícios matemáticos, no entanto, Juninho adormecia no meio da tabuada...

Apenas no último dia antes do exame final, por milagre ou consciência à amizade, Juninho percebeu que nos separaríamos no recreio e nas travessuras em sala de aula; então, sendo mais homem que menino, passou toda a noite e madrugada aprendendo a aritmética, geometria, frações, variáveis, dízimas, raiz quadrada, equações simples, fatoração, álgebras, ângulos, enfim, decorou de sobra os fundamentos e problemas da ciência matemática. Contudo, desgraçadamente, estudou tanto que esqueceu-se de dormir. Na manhã seguinte, a mãe dele perdera a hora, ele não acordara e não fizera a prova. Foi reprovado na escola. Naquele tempo havia repetência de ano letivo como sentença aos alunos que fossem julgados incompetentes à próxima fase escolar, hodiernamente os educadores não sentem necessidade disto. “Isto é retrógrado!”, afirmam os mestres modernos do alto de suas secretarias. É pena não haverem pessoas tão bondosas naquela minha época de estudante, é pena!

Mas mesmo em classes diferentes, Juninho e eu continuamos nossa amizade fraterna. Naturalmente que os meses passavam e, separados por turmas, surgiram em nossas vidas recentes amigos, outras distrações, os sorrisos de meninas, as broncas das professoras, a nova gente, etc.

No entanto, dois anos depois deste nefasto episódio envolvendo a repetência de Juninho, precisei dele. Eu tinha uma dúvida que não se aquietava dentro de mim: “Convidar Maria Hercília para fazer par comigo na festa junina da escola ou não?” E se ela não quisesse ir comigo; se achasse que eu era um bobo por pretender que a garota mais bonita do colégio inteiro aceitasse convite tão tolo e sem propósito. Talvez ela até fosse à festa, mas com algum moleque intrometido. Porém, como eu saberia todas estas coisas se não perguntasse a ela? Aham; Juninho era muito inteligente, se repetira de ano letivo outrora fora pela sua astúcia malandra e esperteza social. Ele haveria de me ajudar em momento tão confuso.

- Ora, ligue para ela e pergunte logo! – aconselhou-me.

- Não posso simplesmente ligar para ela, não tenho o número.

Mentira, eu tinha sim o número do telefone dela e Juninho sabia disto. Então, sem melhor alternativa que salvasse-me de viver, estando imerso na mais pura bisonha, eu tive de ligar para Maria Hercília. Gaguejei, como imagina a querida dona leitora, errei meu próprio nome, errei também o dela, chamei-a de “Maria Ervilha”, havia barulho, meu cachorro Teco-Teco latia dentro do quarto, Juninho ria de minha latente inabilidade romântica; foi um desastre. “Tonto!” Não zombes da meninice frouxa deste pobre autor, leitor álacre. Nunca gostou de uma garota bonita em seus tempos pueris?

Curiosamente, Maria Hercília aceitou o convite atrapalhado. Não menos atrapalhado foi Juninho ajudando-me com as vestimentas rasgadas e remendadas apresentando minha imagem na dança jeca, e na barba pintada com canetinha preta (não era à base de água e sim alguma química ordinária daquela época) que riscava de meu nariz à testa. Seja como for, eu estava pronto; graças a Juninho. Da festa pouco digo, ou nada. Esta é história muito particular e que em nada acrescentaria ao texto; talvez só fizesse com que o espirituoso leitor desse mais e mais gargalhadas às minhas custas. Isto não! Além de que festas juninas são todas iguais: “Olha o padre, é mentira! Olha a cobra, é mentira! Olha o caipira de cócoras, é verdade!” Para não saírem por aí dizendo que sou parcial e nevrálgico, admito apenas que fiquei uma semana sem lavar a mão que Maria Hercília havia apertado no "arrasta pé". Só a lavei porque o desgraçado do Teco-Teco a lambeu na tentativa de abocanhar a “maria mole”, um tipo de doce infantil que existia antigamente, e que eu segurava entre os dedos – mesmo assim relutei e ponderei bastante antes de verificar que seria de fato impossível ficar sem lavar aquela mão que tão bela menina havia tocado.

Desta história só conheci a verdade depois de adulto. Num encontro casual em trivial lanchonete, a boca da própria Maria Hercília confessou-me que fora convencida por Juninho, em conversa no finado ICQ, a aceitar parceria comigo naquela festa junina do nosso colégio. Juninho pagou a ela por isto com 1 ursinho de pelúcia, roubado da irmã, e 1 tamagotvhi.

Que amigo! Devo muitas coisas a Juninho. O pior é que nem posso pagá-lo; oh, grande parceiro infantil! Um dia à tarde, há muitos anos, não havia muito sol e sim uma garoinha triste, eu estava sentado no banco da praça do bairro e encostou ao meu lado um garoto. Era o meu melhor amigo:

- Vou mudar...

- Quê?!

- Vou mudar! Você está surdo?

Eu nada disse; não que estivesse mesmo surdo, apenas não queria ouvir. Mas Juninho queria e precisava falar:

- Minha mãe avisou ontem. Meu pai foi promovido a cargo superior em outro ofício. Vamos ter de ir com ele... Vou embora da cidade, do bairro, da escola...

- Não há outro jeito?

Havia. Juninho mudou-se para o meu quarto. Ele morou durante 6 horas e 20 minutos escondido debaixo de um sofá carcomido pelo tempo, como Gregor Samsa só que tendo companhia e levando lambidas amigas do Teco-Teco, até que o pai dele apareceu em casa e o levou. Mudaram-se. Nas tais andanças das nuvens jamais reencontrei meu velho amigo de infância, nem mesmo sei se ele ainda está vivo; às vezes tenho saudade... Quem sabe, em alguma hora desocupada, eu vá encontrá-lo no twitter; sabe-se lá.

Da torre da igreja do largo do mosteiro italiano soam 6 badaladas de sino, importunando os pombos que saltam para vôo a esmo assustados pela expulsão repentina. Eu continuo sentado no meu antigo banco de praça e sentindo a mesma garôa a mover-se no céu nublado.

Por Ricardo Novais

Dia da Mulher



Hoje é dia da mulher. Mas todo dia é dia da mulher, salvo aquele 1/4 de dia voltado ao futebol e à cerveja...

Parabéns, queridíssima leitora, que admiro tanto e meu sentimento chega a ser maior que a própria amizade que lhe guardo. Admito, fascina-me!

A atração é forte. O sexo... Tudo mágico, maravilhoso, estonteante. Paixão, fulminante, que cresce mais a cada dia num pobre e confuso coração. É a tal da paixão do amor... Viver o amor por uma só mulher, junto ao desejo de ser amado com exclusividade por ela; entretanto, é prudente e, sobretudo, sublime também o amor à várias mulheres.

A mulher de minha vida!

Ainda que haja sofrimento e inquietação, a minha alma está em contínuo aprendizado e o leque da vida se abre espetando fina agulha nesta mesma alma, costurando assim o manto de retalhos que me cobre.

São pontos de agulha enfiada à flor da pele, que tira sangue muito vermelho e que não se estanca com facilidade. Mas, e para vossa senhoria, estimado senhor leitor; qual a linha que remenda sua alma? A dona leitora é mais sábia, percebe e ajusta as fardagens antes que se rasguem...

A mulher é o diamante bruto e o diamante lapidado; o primeiro a descobrimos é o diamante bruto, depois percebemos, quando o diamante é lapidado, que estávamos enganados. Boa teoria. Uma corruptela!

Antes eu era incapaz de compreender o pensamento feminino, logo, incapaz de compreender a parte verdadeiramente bela deste mundo. Ó manto de rendas, que tanto fascinas! Mais tarde eu, por certo, constatarei irrefutavelmente: cada mulher que conheci dará um ponto de agulha para emendar esta minha alma rasgada...

Sendo sincero à minha amiga, de todas estas mulheres que conheci e conhecerei eu menti e mentirei, enganei e enganarei, dissimulei e dissimularei, mas, possivelmente, mentiram-me e mentirão a mim, enganaram-me e enganarão ou foram e serão desleais comigo. Ainda assim, quero viver tudo que já vivi e tudo que nem mesmo vivenciei ainda, tudo novamente, se isto me for concedido.

Talvez a minha esperança seja enterrar as mulheres que tanto amei ou ainda amarei, posto que mais à frente a vida não vá me reconhecer... E eu não quero ficar velho caçando algum pensamento passado que não arranje jeito de se encontrar com minhas adoráveis e tão encantadoras amigas que tanto impressionam-me. Deveras, querida leitora, impressionas tanto ou mais que aquelas tecelãs nova-iorquinas mortas, terrivelmente carbonizadas num incêndio provocado por homens incapazes de compreender a alma feminina, em 8 de março de 1857.

Enfim, a vida continua a girar e estarei sempre com minhas queridas mulheres; ou, falando de uma outra maneira, todos nós estamos sempre entre dois caminhos. Um mais possível que o outro, mas sempre entre dois caminhos.

- De onde eu te conheço?

- Dos teus sonhos, talvez!

- E o que quer fazer pelo resto de seus dias?

- Hum... É; não sei. Mas sei o que faremos hoje!

- Garota bonita, fica comigo...

Clique em pausar, na barra lateral, e desabilite a rádio Stay Rock.


Por Ricardo Novais

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