Pequeníssimo Tratado Sobre a Identidade Cultural Brasileira

Identidade Brasileira II
Correspondências

Noutro dia, travou-se em ambiente virtual contenda entre um jovem mestre e um aprendiz. Ao leitor que desanime deste texto com facilidade, digo que seja perseverante. Perdoe este pobre autor pelo post ser tão longo, embora seja curto para ser chamado de tratado sendo, portanto, mais uma ideia desenvolvida. De qualquer modo, amável leitor, atrevo-me a pedir-lhe que leia estas linhas até o fim. Afaste o tédio. A causa é boa e diz respeito à vossa família. Se não acreditas nisto, caro amigo, pergunte então a dona leitora; ela bem aconselhará teu coração, leitor de pouca fé.


Apresento-vos então, sem maiores circunstâncias e consequências, pequena querela que comprime as raças sociais.


Trocando Ideia

O aprendiz inicia intervindo com alguma confusão a pensamento já corrente:


Tuas ideias são excelentes, embora haja nelas algo das definições do "Imbecil Coletivo", do velho Olavo. Não, não há nada de errado com os estudos do filósofo, mas é que seja inteligência, burrice ou pseuda felicidade, o pessimista surge latente.


Se o sujeito começa a refletir os próprios pensamentos, vindo à ideia, e estes ligando a outros insurgentes que virarão em axioma racional (ou não) e, talvez, chegando à conclusão plausível que deverá ser discutida com outro ser (burro ou inteligente) que lhe devolverá em outras ideias. No entanto, por certo que ambos fizeram o mesmo processo do pensar inteligente; ao menos, presumi-se. Ou seja, esta será a constatação de como vivemos de maneira superficial e obtusa – como já verificado por ti, anteriormente. E, no meu modo de ver, é isto quiçá que acarreta na angústia e no decorrente pessimismo que havia dito.


É, meu caro mestre, constato que é melhor ser burro. Cadê minha cerveja?”


O mestre, senhor do tempo, sorri-lhe à cara; embora isto tenha lá uma centelha de eufemismo, já que o ambiente é virtual:


“Ah, não diga isso!", exclamou prontamente o corajoso mestre. "Se nosso ideal de virtude é o personagem de comercial de cerveja você teria razão em sua ironia final. Pelo menos penso (e espero) que seja ironia!”


O mestre levantou as faces. Refletiu um pouco, sopesou a própria meditação e auferiu boa questão. Neste instante, o aprendiz, em leve concentração, permaneceu quieto:


“Vê-se”, disse o mestre, “que, no fundo, a questão é moral! O que torna as coisas absolutamente maravilhosas! Veja, nosso máximo ideal de virtude, o Cristo que se entrega à um suplício violentíssimo e injusto, ensina-nos que se deve contrariar o mundo. Podemos escolher segui-lo ou recuar assustados. Bah!, eu te conheço! É ironia mesmo!”


Houve frouxidão de gravatas, dilatação das narinas na tentativa de captura de ar fresco e o rumor das elocuções do mestre tornaram mais fortes e definitivas:


“Mas o povo brasileiro é ainda muito evoluído moralmente. Como tudo chega aqui com atraso, quando a modernidade aterrissar com força em nossa terra, o atual avanço do cristianismo na televisão terá fortalecido a fé das classes médias baixas. O Portugal que existe em nós prosseguirá depositário da fé verdadeira!”


Neste instante o aprendiz sofreu um golpe do vento, seus olhos foram irritados pela poeira e respirou a fumaça vinda de escapamentos dos automóveis.


“Sim, caro mestre, foi mesmo uma ironia. Ironia pouco refinada, eu reconheço. Tocaste em ponto crucial: nossos valores. Valores do mundo ocidental! Estamos os perdendo... 'devagarzinho'...”


Esfregou os olhos e prosseguiu:


“Desgraçadamente não tenho este otimismo quanto ao futuro, querido mestre. Vejo apenas o positivismo em moldes 'cientificista afrancesado' e o iluminismo latente ‘esvaziando’ esta nossa sociedade... Assim fácil é para um crente muçulmano tomar conta de tudo, daqui algum tempo... Poxa vida!”


Vício dominador, ainda caçoou de seu interlocutor:


“Um brinde em caneca de chope ao povo brasileiro! Mais que isto: Viva os valores judaico-cristãos! Mas com moderação...”


Inevitável a gargalhada do mestre. Recompondo-se, não deixou por menos:


“Mas os deixem. Acho que essas ideologias não contaminarão o povão. Talvez essa sua sensação se dê ao fato de que, no Brasil de hoje, ainda estejamos com o debate bastante atrasado. Somente por isso os termos ainda estão bastante atrelados a este positivismo reducionista e incompleto. As pessoas que preferem segui-lo fazem grande mal a si mesmas, pois ignoram por completo as suas faculdades mentais, o que convenhamos, é um absurdo se pensarmos na importância das coisas. Ter a mente ajuizada é muito mais importante que ficar repetindo as verdades alheias de maneira apaixonada.”


Contrapôs também aos gracejos do outro:


“Mas não pense que sou muito otimista não! Acho que esse tro-lo-ló pseudocientífico não chega aqui com a mesma força, mas a perda dos costumes já chegou. Esse é o nosso maior drama social: as pessoas que conjugam uma crença em tal Deus com as dancinhas mais nefastas. De qualquer forma, parece-me um problema menor!


Contudo, o aprendiz tinha lá algumas brasas no corredor cardíaco; de modo que atreveu-se no discurso:


“Sinceramente, não percebo o Brasil atrasado com esta ideologia balofa do nosso mundo ocidental. Vejamos, por exemplo, a nossa Carta Magna, esta recente de 1988. É positivista, apregoa a sociedade laica. Ora, como jugular uma tradição milenar sem sofrer consequências? Invés de aperfeiçoarmos os valores e caçar a nossa genuína identidade (não esta copiada de algum francês irresponsável), renega-se tais coisas como 'caretice' e ideia ultrapassada... O exemplo muçulmano talvez não seja politicamente correto; pode algum chato ver nisto preconceito contra religião alheia. No entanto, penso que salienta bem a gravidade da situação. Como diria minha velha avó: "O demônio se esconde na panela vazia". Não digo que são demônios; ao contrário, eles estão certíssimos. O problema somos nós, que, balofos de espírito, estamos sujeitos a qualquer povo com espiritualidade elevada e disposto a preencher-nos o vazio da alma. O ateísmo parece problemática já superada, digo como ameaça aos valores. Se o sujeito quiser ser ateu, agnóstico, seja lá o que for, a estrutura da sociedade nada mais sofre. É de direito dele e, portanto, só diz respeito a este. Mas uma ideologia firmada pelo Estado é preocupante...”


Perceba, leitor, que não havia nada de ordem naquele debate; era tão somente uma troca de ideias. Queria dizer o aprendiz com as palavras acima que, embora também tenha lá seus problemas no arcabouço interno, a Igreja (leia-se: pensamento instituído milenarmente) conseguia segurar o ímpeto da futilidade extrema e amparar o indivíduo. Ainda insistiu-se na ideia de que a pura superficialidade do povo brasileiro impede a descoberta de uma identidade autêntica e por isto o Brasil é plágio de si mesmo.


Não havia ali, entretanto, defesa de dogmatismo religioso – embora parecesse nas palavras a tendência de orientação católica. Muito menos advogavam o ateísmo. Discorriam sobre valores. Aquilo que sorreteira e sutilmente nos forma como homens.


“A Coca-Cola é nossa, mesmo que nós não gostemos de refrigerante e a achemos uma porcaria”, como disse o aprendiz. “As coisas boas e ruins nos formam, é natural. Talvez seja mesmo o palco de ópera que devemos representar – com seus dramas, comédias, reflexões... Mas ‘Estado laico’ é tirar o direito do indivíduo, seja religioso ou ateu, de viver; e também de todo um povo de formar o seu estreme alicerce para criar; enfim, esta nossa sociedade renega uma cultura original. Muda-se a roupa, mas a ideia permanece... Maldito Augusto Comte! Mais maldito ainda seja Benjamim Constant!”


Deveras, parecia que o mestre compreendeu o aprendiz. Concordou, em parte:


“É, realmente estes (os positivistas intelectuais) se superaram no quesito bobagens. Já quanto as interpretações antropológicas que se podem fazer da Constituição não sei comentar, pois não tenho instrução jurídica. Sei, todavia, a importância que possuem na determinação do comportamento social com o que se pode ou não se pode fazer.”


Conta-se que este aprendiz, quando estudava matéria de direito constitucional, numa simplória faculdade de direito, reconheceu o mote do pensamento positivista.


Entretanto aquilo não entrava nele, significando apenas as denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, quais ele fora obrigado a estudar para o vestibular. Via nestas galicistas ideias tão somente uma capital de país artificial do século  XIX; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Époque que tanto já apareceu pelas linhas deste blogue.


O pobre diabo do aprendiz, no entanto, gostava de história, de boas histórias como aquelas do "Prata Preta" e as contadas pelo "João do Rio". De modo que lia a fio, ora por ócio ora por teimosia, tudo que era relacionado ao positivismo. Julgou mesmo ter descoberto mais influências e efeitos colaterais quando retomou os estudos sérios da faculdade; talvez tenha de fato descoberto algo importante, mas isto é quase nada.


Como já sabe a minha querida dona leitora, não há aqui nada contra a valorosa e elegante França; em absoluto! Mas a tristeza surge com a culpa desta geração Y – e já foi assim na X e com os Baby Boomers. A América abraçou com gosto este pensamento cientificista e fútil.


O genial Machado de Assis foi notável estudioso do tema. Lá se vão mais de 100 anos que o 'velho bruxo do Cosme Velho' morreu e não consta que tenha mudado muita coisa – constatou o aprendiz, inclusive, que o saldo parece pior. Não creio que ele esteja totalmente errado...


Depois de tudo, não deveria mais nada dizer; e não digo! Como último parágrafo, deixo as últimas palavras de um jovem, porém consciente, mestre de debates:


“Caro aprendiz, achei muito legal isso que você disse: “Aquilo para mim tinha significado apenas nas denúncias literárias de Augusto dos Anjos e Lima Barreto, que eu fora obrigado a estudar para o vestibular, sobre uma capital de país artificial; aquele "Rio de Janeiro sofisticado" da Belle Epóque.” Eu também pensava a mesma coisa do positivismo. Achava até um negócio legal, uma análise honesta da realidade como ela é, mas, assim como você, ignorava por completo seus nefastos aspectos cientificistas e sua absurda pretensão universalista.


Quanto ao Machado, é mesmo muito inteligente. É tão superior às coisas ao seu redor que brinca com os próprios princípios que advoga, relativizando-os e cuidando do que verdadeiramente importava: a literatura.


Veja, tenho em casa uns quatro vasinhos com o mato ‘quebra-pedra’, já ouviu falar? É uma planta de rápido ciclo de vida, e afirmam que seu chá é medicinal, mas nunca provei-o. Cultivo o ‘quebra-pedra’ pois é a comida favorita dos dois grilos que tenho – não nos ouça o Ibama! Mas apareceu em um deles outra planta. Ficou ali alguns dias e foi crescendo. Quando pareceu-me grande o bastante para ser arrancada, cautelosamente retirei-a de modo a não acidentar o 'quebra-pedra'. E que surpresa desagradável não tive quando, junto da planta indesejada, veio um brotinho recém-desabrochado do meu querido matinho. Lembrei-me daquela parábola de Cristo, na qual o dono de uma roça avisa seus serviçais que não arranquem o joio "para não correr o risco de, assim, retirar o trigo". Essa era a vida neste planeta dois mil anos atrás, e continuará sendo assim. Talvez muito desse joio incômodo ainda acabe nos surpreendendo. ”


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Este debate, transcrito não tão literalmente, foi na verdade uma conversa agradável e  bastante instrutiva que eu tive com o amigo e pensador Henrique Rossi, do blog Polimático. Ele no papel de mestre, eu de aprendiz.


Dou-lhe, amigo Henrique, parte dos direitos autorais do post; embora, sinceramente, eu duvide que queiras ter o nome atrelado a tão anódino texto. Ainda assim, se achares que tens direito a toda a obra... Então, até o tribunal! Fique em fleuma, estimado autor; estou a brincar-lhe com os nervos. És tu o articulista e promotor desta reflexão. Ademais, o positivismo contempla todas as ideias; como sabe.


Por Ricardo Novais