Reflexão do Camundongo

Imagem do Site: Ciência Portugal.

Hoje de manhã, andando pela rua, vi do outro lado da calçada uma moça belíssima. Meus pensamentos, que até então eram esparsos e vazios de novidade, voltaram-se para àquela figura agradável e que enleaste minhas primeiras horas do dia. De modo que fiquei, em certa altura, admirando o desenho dela à calçada, e esta ao lado do muro escolar próximo ao ponto de ônibus e à estação do metrô.

Se eu obedecesse ao prazer de meus pensamentos, ficaria no outro, sem nunca ter iniciado este post. Mas não há lembrança que não se sobreponha à outra, se esta for menos agradável. E esta é. Sendo assim, meus olhos viram, à distância pouca e entre as máquinas de outro homem, uma manchete de jornal online: “Cientistas Criam Vida Inteligente”. Foi isto que me fez esquecer a bela moça que andava elegante e despretensiosamente pela calçada oposta à minha.

Maldito gênio matinal que me tirou memórias deleitosas!... Fui então à minha máquina tomar conhecimento da notícia científica com maiores pormenores. Tratava-se de afirmação polêmica de médico italiano e seu colega norte-americano cientista de novas mídias, fundamentados por filosofia de Königsberg, de arriscada experiência biológica que promove a capacidade de um ser, de vida natural, em armazenar todas as informações existentes no mundo, usá-las e comunicá-las com recursos céleres.

O jornalista que escreveu o artigo, por certo tão preparado quanto os que lêem tais notícias, expunha que a Igreja Católica manifestou-se contrária a tal manipulação genética e que a classe política internacional é avessa ao conhecimento geral. Mas foi a declaração do rato, cobaia no experimento de criação da vida mecânica baseada na vida natural com capacidade de guardar dados, que causou a maior controvérsia. Verídico, leitor; não foi uma declaração oral, mas ocular. Havia uma fotografia abaixo da manchete e ao lado do texto, “Cientistas Criam Vida Inteligente”, onde se podia perceber toda a reflexão do camundongo. Verdade que as fotos não falam, talvez nem seja aptidão dos camundongos a organização cerebral; entretanto, via-se nos olhos arredondados e profundos do calunga a meditação de especialista em ciência e em opiniões tecnológicas.

Eis qual foi o solilóquio do rato:

“Este meu dirigente sofista quer criar vida... E inteligente! Estais a brincar de Deus. Meu querido diretor não se importa com pudores religiosos nem morais. Ousado és tu, tenta criar vida humana a partir de meus poucos esforços intelectuais... Clona-me, portanto. Não há de ser nada. Enquanto estudas teus experimentos, vou ajuizando que teu império não vale muito; sou eu quem me alimento de teus inventos quando estes forem tão-só lixo. Sou eu o protozoário que transmitirá tal parasita ao hospedeiro intermediário para que no futuro chegue ao hospedeiro definitivo. Além de que não tenho tuas angústias, amigo cientista, nem tuas implicações éticas, muito menos teu ‘papel de Deus’ criador da vida clarividente estimando (in)sensivelmente quantos fetos, ou bebês, defeituosos serão descartados na disputa do pioneirismo da clonagem existencial de ser arauto de todas as notícias da Terra – é de teu ofício, senhor, esta linha de montagem industrial... Fosse de meu encargo este experimento, eu o faria na tentativa de estabelecer conservada a ordem universal, como já existe, assim prolongaria também o tempo de modo a atingir teu objetivo de acumular e processar todo o conhecimento ungido sem nada perder-se no processo. Mas nunca como tu, cientista de razão pura, ambicionando criar tal antropocêntrica enciclopédia de acessos ultra celerados.”

Vi esta imaginação na imagem, nem tão grande nem tão curta, daquele camundongo que apareceu em artigo de jornal editado pela internet. A própria reflexão resignada apareceu nas retinas dele, pouco cáusticas e mais sinceras; pobre diabo! Não pude ver-lhe o gesto na fotografia, nem ouvir-lhe palavra ou cogitar-lhe outro julgamento; apenas pude ler-lhe os olhos arredondados e profundos.

Eu ri do rato, ele também riu de mim. Depois fui ter em outras coisas, outras figuras de moças belíssimas, outros pensamentos esparsos, enfim, fui cuidar da vida; vida esta tão celerada que consta já sofrer de ‘síndrome da fadiga da informação’. Maldição de 'Weil'? Ou será apenas a ação natural do 'toxoplasma gongii'? Aquele camundongo de ofício cobaia nada mais pode dizer; é que assim que ele alcançou a natural liberdade, tornou logo a antigo litígio com um felino, certamente hospedeiro intermediário, já seu conhecido.


Por Ricardo Novais