Recomeços...

Pôr-do-sol beijando a Baía de Guanabara. Foto: GEMERSON H DIAS.Site: olhares.com.

Último dia de mês, primeiro de algum recomeço. Estou de volta aos meus velhos sonhos ardilosos e novas esperanças vazias; sempre recorro a mim mesmo – ente este qual, às vezes, sinto tanta falta de decisão.

Amanhã não quero que me perturbe mais, ó vida! Quebrei hoje as letras de qualquer história, joguei qualquer sentimento pela janela. Não me perturbe mais! De agora em diante só quero a sorte de um sorriso calmo e alguma boa dose de bebida sensual, uma vida que valha alguma alegria mais leve. A única estrutura que eu aceito que balance é a do coração.

Obrigado, meu Senhor, por ter me mostrado algum dom. Obrigado, meu Senhor, se hoje eu sei quem eu sou – e ainda encontro a mim mesmo. Não é grande coisa, por certo; mas, em meio a toda minha hipocrisia, isto é tudo. Os elogios dissimulados e tapinhas às costas são meu grande reconhecimento, à grande honra! Eu só quero domar a imaginação e desvirtuar a realidade; nada mais, nada menos. Causa-me esplêndida impressão estes sonhos que transformam alguma vida com alguma palavra, alguma letra, rabisco, rascunho, linha...

Ninguém pega um caminho incerto qualquer por acaso do imponderável; tudo, e o resto, é tomar uma decisão.


Ricardo Novais

Nem Toda Lagarta Vinga em Borboleta

Arte: Ilustração disponível no Google Imagens.

A câmera de vigilância de certa praça pública insistia em mostrar os movimentos céleres de uma criança de rua vendendo drogas para um meirinho de escritório e para uma dona de padaria. O garoto, que parecia num dia especial de comemoração pessoal, deslizava num balé magnífico pela calçada de mármore preto e branco à direita a entregar a encomenda, cumprido este ritual lá ia ele à esquerda por entre o jardim da praça com outra mercadoria solicitada. Era um bater de pernas violento, do mesmo modo eram frenéticos os clientes da pequenina caricatura de traficante. Observando as imagens há dias, as autoridades de vara de infância apelaram à polícia para dar fim àquela peça de tragédia urbana. Chegaram as viaturas, os viciados descompuseram-se pelos cantos nauseabundos, os transeuntes fizeram mofa do garoto que ainda tentou esconder-se correndo à santa catedral, mas foi pego como herege.

Os policiais o jogam dentro do camburão. Lá no fundo daquela viatura sombria, apertado entre meliante adulto, a criança chorou assustadoramente. Gritaram que se calasse o pranto.

- O que aprontou você, garoto? – quis saber o bandido experiente.

O menino nada disse e se limitou a pensar que ele seria aquele grande bandido amanhã. Entretanto, aquela pequena criança não chegaria a ser nada além de arquivo policial – em futuro. Nem toda lagarta vinga em borboleta. Levou um tiro, o infante.

No hospital, o médico legista pediu que avisassem a família do pobre-diabo. O enfermeiro, não se sabe como, conseguiu um número de telefone; ligou:

- Alô, preciso falar com os pais ou responsáveis do menor J***...

- Não é daqui!

- Mas ele tinha com ele a certidão de nascimento...

- Não é meu filho!... É bandido! É trombadinha! É trombadinha!

- Ele morreu, minha senhora.

- Não importa, não é meu filho! E... Não me perturbe mais com isto!

Ao desligar o telefone, aquele simples enfermeiro de ordinário hospital público ficou a pensar que a vida é igual para todos, mas o sonho, ah, este muita vez é  ficção fantástica, e inacessível.

Creio que eu ainda não disse, leitor, de modo que digo agora. Era mesmo comemoração especial; o menino estava completando 10 anos de vida em exato dia de sua morte.


Por Ricardo Novais

Convite ao Letras et cetera

De fato, causa-me muita alegria dizer que foi publicado no Letras et cetera, excelente página de literatura, um conto escrito por mim quando a cabeça pensava no primeiro amor. Primeiro amor... Lembra-se leitor de tua namoradinha de tempos remotos? A querida leitora certamente há de se lembrar da paixão quase infantil; não é mesmo? Visitem a página, garanto que apreciarão o formato; é boa a letra! Além de que sempre agradável é relembrar de algum amor incerto e perdido no tempo ou no espaço.

Para ler o texto clique aqui.

Dilema dos Olhares de Aço


Senhor leitor e dona leitora, eu contarei uma pequena história de amor. Mas estou desconfiado de que as damas românticas lamentarão o final da trama e os cavaleiros valorosos se revoltarão contra o desfecho da aventura. Então, dei-me licença um instante, eu vou levantar um pouco da frente da escrita, esticar um pouco as pernas, indo à janela avistar a confusão da cidade, tomar um café, pensar um pouco na narração e em como proceder com ela. Já já retornarei...

Olá, estou de volta. Não demorei um nadinha, não é mesmo?

Já pensei sobre meu dilema. Como disse, eu estava tentado a mudar o curso da narração, porém, não seria justo alterar o rumo da prosa, isto não seria justo com vossa senhoria que me acompanha tanto por este pueril espaço virtual, fiel leitor e fidelíssima leitora. Custa-me contar, chega mesmo a embrulhar-me o estômago e virem dores à cabeça, mas devo ser leal a veracidade da história; por isto mesmo não posso, absolutamente, abster-me de dar desfecho a este caso de amor. Eu quis de fato sair à francesa, entretanto, não podendo, conto-lhes o que aconteceu... De modo que vamos à tormenta. 

Certo dia, um amigo veio ter comigo no escritório e intimou-me a irmos ao bar de esquina; havia algo a dizer.

- Pois diga, meu velho amigo!

- Olha, cara... Tenho uma coisa pra te falar... Eu considero você como o irmão que não tive... Sabe disto, né?

Assenti com cabeça estranhando. Ele continuou tartamudeando:

- Mas, por isto mesmo, preciso saber...

- Fale, rapaz... Fale de uma vez!

Ele não falou de imediato, pareceu reunir forças, depois manifestou apenas o título do capítulo ardiloso que ia tratar:

- É sobre Madalena...

- Ah, não! Esquece! Ô! Eu nem a vejo mais... Pra ser sincero, até que penso nela, às vezes... Certamente eu torço para que ela seja feliz, mas longe...

De fato, eu proferia estas palavras com pouca convicção, embora sorrindo insinuando despreocupação, quando fui interrompido:

- Espere! – disse o meu colega, muito afetado.

- O que foi que você está tão exaltado? – perguntei pulando da cadeira.

Compreendo que era difícil dizer, o pobre-diabo travava-se todo. Insisti com ele para que contasse de imediato, posto mesmo que eu já pensasse ter acontecido algo terrível à minha ex-namorada:

- Ela está bem? Aconteceu algo com a Madalena? O que foi? Fala logo, porra! – eu já esbravejava com ânsia sorvendo a cerveja.

De certa forma, era sim algo terrível:

- É que Madalena está...

Meu Deus, dona leitora! Este mundo em que vivemos ainda consegue me surpreender. Já disseram antes que o mundo todo está em todo mundo, mas há certas coisas que parecem vir de lugares muito escondidos, coisas ensaiadas que não vêm de logo ao conhecimento e ficam guardadas nas entranhas humanas. Porém agora é tarde para desistir de contar, se o café que tomei a pouco não estivesse tão frio... Bem, mas veja o que foi a mim revelado:

- É que... Madalena está comigo! Estamos juntos!

Às vezes, tudo que um homem quer é ter uma máquina com o efeito mágico de paralisar tudo, imediatamente. Porém, eu não tinha a tal máquina e empalideci na mesma hora, sem mais saber articular palavra. Não pense que era porque eu não conseguisse falar ao meu amigo, na verdade até quis, mas o engasgo na traquéia me atrapalhava. O coração galopava dentro do peito, já no quadrante seguinte percorreu-me algo por incertos caminhos dentro do organismo. Assim, tudo naquele momento me afetou as ideias. Confesso que em meio aquilo que ali ouvi só consegui gravar duas palavras do que meu desgraçado amigo pronunciou: “Estamos Juntos!”.


- Estão juntos? – eu ainda balbuciei.

- Estamos juntos! – ele confirmou.

Não! Eu não o achei desleal, sobremaneira; após alguns minutos de recuperação, declarei meu beneplácito. Mas fiquei prostrado com a notícia. Não culpei ninguém. O país é livre! Meu maior amor nesta vida se apaixonou pelo meu melhor amigo, qual este já dissera também, em oportunidade, ser eu o seu melhor amigo. Contudo, nem mesmo eu tive culpa importante; pois a coisa essencial a saber é que foi amor pela mesma mulher. Este é o mal; o mal é que dois homens se encantaram por uma só alma. Porém, amenizando ao instinto, conforto-me pensando que o intruso desta história toda não fui eu. Talvez nem haja algo a lamentar.

Mas sabe o que é terrível, leitor? É que, embora amasse Madalena muito ainda, eu devo reconhecer com sinceridade que não queria mais nada com ela – por razões que não direi aqui. Entretanto, é verdade também que custou-me aceitar que a desgraçada tivesse algo com outro alguém; e principalmente se este alguém fosse um conhecido e, além disto, conhecido parvo calhorda sabedor da angústia amorosa por qual passei com aquela mulher. Em tal caso este foi todo o meu desgosto. Madalena não estava mais comigo, sim, mas ela ainda estava em mim, em algum canto do coração onde o egoísmo da paixão tece sua teia rancorosa e irascível. Sei que o leitor de pouca paciência me dirá egocêntrico ou imaturo e que a querida dona leitora me acusará de machista ou mesmo de estúpido, contudo, desconte, de algum modo, que quando olhei no relógio de pulso eu tinha perdido o amor da minha vida, quando olhei ao relógio a própria vida tinha passado.

É preciso ter 'Nervos de Aço'...


Primeiro, declaro: isto é um conto daquele mesmo lugar entre a imaginação e a realidade; de modo que qualquer verossimilhança é coincidência. No vídeo vemos o grande compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, torcedor e autor do hino do Grêmio Football Porto-Alegrense, comentando e cantando a música, de sua autoria, Nervos de Aço; na segunda parte o grande vascaíno Paulinho da Viola interpreta a canção com extrema maestria.


Por Ricardo Novais

A Vida e a Morte na Cidade Grande


Cortejo da vida...

Ontem morreu um homem importante na cidade. Eu fui ao enterro. Depois, quando já tornava novamente à vida, fiquei pensando no respeito que os que ainda não feneceram têm pelos mortos e pela morte. Está bem, conto tudo, vá! Não retornei à vida, fui ao enterro de mim mesmo. Mas as impressões que tive em cortejo não mudaram muito agora que estou em outro plano, percebo como a morte iguala as pessoas. Neste momento derradeiro, os homens se equivalem uns aos outros. Assim, as molas mestras da manutenção do mundo de aparências e conveniências que regem esta nossa vivência são, tediosamente, dispensadas pela realidade crua da necessidade de encher um pouco o vazio da eternidade. Repare como todo o respeito que faltou em vida vem após o falecimento, na presença do corpo morto, com o luto circunstante, os círios, aquele cantochão clarividente, as orações fúnebres, duas velas enormes lançando uma chama irônica, o esquife, o féretro, os panos roxos, o réquiem, as lágrimas e os risinhos pelos cantos, o sepultamento no campo santo, na suntuosidade da cova, catacumba, túmulo, tumba, sarcófago, jazigo, mausoléu e, enfim, nos dizeres pomposos gravados no epitáfio.

Isto aponta que os homens mostram-se, genuinamente, na hora da perda fatal. Graças ao bom Deus eu sou mais próximo da morte que o estimado amigo e que minha tão querida amiga, pude senti-la, sentir o seu gosto. Garanto que é amargo, mas não é de todo desagradável; tem gosto de café sem açúcar. Já senti também, bem íntimo, o aroma da bajulação de meu cadáver em velório, das piadinhas amenizando a dor e ajudando a passar o tempo até o enterramento de meus restos, e vi tanta revolta contra a morte... Pobre morte! O que tem ela a ver com o sofrimento dos homens? Apenas cumpri o seu papel de levar o morto, como o coveiro cumpre o dele de enterrar o cadáver, as mulheres cumprem o seu de chorar ao velório e os homens o de discursar antes da última pá de terra. Cerrando bem meus olhos vejo um homem, todo vestido de preto, proferindo: “Que Deus receba nosso querido Pedro entre os seus!” De tal modo, que nesta estação, descobrirei toda a beleza e bondade escondida nos cantos do coração. O homem de preto ainda diz: “Sua vida valeu a pena!”. A felicidade que sinto em constatar que minha vida valeu a pena compensa todo o esforço que fiz para escrever este texto fantasmagórico enfadonho. Digo em conclusão apenas, com toda minha autoridade de morto-bem-morto, que viver plenamente implica em passar por percalços, recuperar-se deles, em seguida cair novamente e, por fim, levantar-se outra vez. Hipocrisia? Não sei dizer... Sei que caminhar desta maneira sucessiva, constante, é devido ao ritmo que é mesmo incessante. Agora, que sou quase letra morta, reconheço que viver é bom.


Escrito por uma alma penada, de certo de mau morto, desconhecida que voltou ao mundo por engano, deixou escrito este texto aos vivos, mas já tornou ao além-mundo. Psicografado por Ricardo Novais.

Convite a'O Bule

Convido-os para lerem um texto que escrevi e foi publicado n'O Bule, espaço de literatura. Visitem, leiam, comentem; tudo é permitido em pensamentos incertos entre a cabeça às nuvens e os pés ao chão.

Para ler o texto clique aqui.
Maria Magdalena em Êxtase, obra do talentoso errante Caravaggio.

Aproximou-se a prostituta. Ela já era minha conhecida. Sorriu-me com charme à cara, dissimulou toda a aventura errante da noite e disse-me com delicadeza:

- Como vai o meu Carlos? Como vai o meu amor?

Não fique muito mortificada, dona leitora; sim, ela sabia o meu nome e eu também sabia o dela.

- Madalena...

Eu a conhecia por Madalena, mas era impossível saber o seu nome verdadeiro. Também, isto pouco importava. Ao leitor digo apenas que o bom é saber que eu adorava Madalena, quase poderia tê-la amado e morrido disto. Aquela bela mulher de curtos olhinhos de quem quer ir para cama com você, mas com trejeitos de moça recatada, desconfiava de meus sentimentos, mas o que a prostituta não imaginou é que eu teria amor... Se soubesses, Madalena, o quando a amei, por certo, ririas de mim... Não digo mais nada, a leitora não compreende, prefere se vexar com asco. Amar as putas é algo incrível! Isto que confesso, minha senhora, é um lugar inalcançável que fica entre a realidade e a imaginação. Por isto estou a escrever, só a escrita chega lá. Se eu criasse aqui um texto autobiográfico ou memorialista e depois dissesse que escrevi um conto seria ridículo. Pois, se eu me comportasse desta maneira tola e balofa, a minha Maria Madalena teria as lágrimas de arrependimento, que um dia derramou com sinceridade, maculada por este seu amante do acaso.

Ricardo Novais

Um Sonho Dentro de Outro


Gianlorenzo Bernini (1598-1680). Éxtasis de Santa Teresa (1645-1642). 

Pedro acordou de um pesadelo horrível. Sobressaltado, sentou-se na cama e olhou o irmão que dormia em outra cama ao lado.

- Paulo, Paulo, acorde!

O momento era aterrador. Paulo não acordava e Pedro se desesperava. Chacoalhou o irmão com energia, de repente, Paulo despertou.

- Que é?

- Nada... É que tive um sonho ruim... – balbuciou aliviado Pedro.

Leitor, estais a pensar que Paulo ficou irritado por ser acordado tão abruptamente; não é mesmo? Pois não ficou. Ele estava esquisito, entorpecido por algo que ia além do sono. Pedro notou e estranhou o irmão. Bateu-lhe na cara com força, mandou que se recompusesse, perguntou-lhe o que acontecia. Entretanto, Paulo apenas sorria debilmente e emitia um assombroso som idiota: “Hehehe, hehe, hehehehe, hehe, hehehe...”.

- Mãe! Mãe! Mãe! – gritou Pedro muito assustado com o comportamento de zumbi do irmão. Porém, ele percebeu que seus gritos eram abafados, como se estivesse num sonho pautado ou numa filmagem antiga onde as imagens e os sons fossem desconexos.

De um salto, Pedro correu em direção à porta do quarto e ia abri-la quando a mãe apareceu em sua frente, subitamente, com a audácia e a prepotência materna.

- Que foi menino? Está louco?

- Eu não sei... Olha o Paulo, mãe...

- Vai dormir e deixa o seu irmão dormir também. Já é tarde, amanhã é dia de escola...

Ao olhar para trás, Pedro viu que Paulo dormia serenamente. “Será possível?”, pensou ele. “Estou sonhando?”.

Era incrível, tudo estava acontecendo e ele não entendia nada. A mãe foi à cozinha, Pedro saiu do quarto e foi ao banheiro. Seu andar era lento, moroso, como se estivesse mesmo sonhando. Olhou no espelho e conjecturou:

- Ai, meu Deus! Será possível? Eu estou sonhando, só pode ser... Tenho que acordar, eu tenho que acordar... – ele dizia e dava tapas ao rosto jogando água fria aos olhos.

Nisto, num abalo psíquico, ele bateu no espelho o jogando com violência contra a parede. Saiu do banheiro e olhou para sua mãe. Ela nada disse, e ainda continuava se comportando normalmente como se não tivesse ouvido nenhum barulho do impacto do espelho se estilhaçando no azulejo ou dos cacos de vidro caindo ao chão. Talvez não houvera acontecido barulho algum mesmo, talvez fosse tudo imaginação de um pesadelo bizarro.

- Tenho impulso, tenho impulso, tenho impulso... – repetia Pedro freneticamente com as mãos juntas encobrindo o rosto.

O impulso era matar a mãe indiferente, o irmão zumbi e todos os estranhos da casa. Já que era um sonho dentro de outro, não haveria consequências; era só ceder aos instintos que lhe acometiam as ideias, acordar do pesadelo no outro dia e pronto, tudo tornaria ao normal. Um anjo barroco, de olhos bondosos, disse-lhe que queria embarcá-lo ao céu, mas outro mensageiro, mais sedutor, guardião do inferno, ofereceu-lhe a barca dos prazeres diabólicos. Sonhos parecem mesmo ter destino articulado pelo arbítrio angelical – de modo que, muitas vezes, até um par ou ímpar entre meirinhos provenientes do além-mundo decide a sorte futura de alguma vida; e, em tal sequência de fenômenos ilusórios, não há o que a inatividade de consciência possa deliberar além de entregar-se ao próprio pesadelo.

Sendo assim, foi então que Pedro foi à cozinha, pegou da faca de cortar bife e cravou-a no peito da própria mãe. Depois caminhou com o mesmo andar vagaroso de antes, embora agora os pés estivessem sujos de sangue, e dirigiu-se ao seu quarto de dormir. Lá olhou o irmão adormecido e deu treze golpes com a faca nas costas de Paulo, que não ofereceu reação alguma. Em seguida, Pedro fez o mesmo com o pai, o primo, toda a família e alguns amigos que encontrou por acaso e nem mesmo moravam na casa, em uns deu dez golpes mortais, em outros deu dezessete ou vinte. Feito o ofício noturno, tornou ao quarto e deitou-se. Dormiu bem. No outro dia ele acordou cedo. Não era sonho.

Por Ricardo Novais

Papai Bússola


Galo, sempre forte e vingador, é bússola. Mas às vezes as coisas desnorteiam tanto...

O dia dos pais é mais importante que o dia das mães? Não. É que as mães são amorosas e os pais são bússolas. E bússola é bússola, serve de orientação.

Conta-se que um pai deve participar das aventuras de um filho. Havia mesmo um rapaz que numa festa na igreja do Belenzinho conheceu adorável moça. Ela, jovem muito educada e com toda candura de menina pura, extremamente tímida, disse a ele que não sabia por que estava ali, sozinha em meio à multidão. Descrevo as peripécias juvenis de mamãe; que, aliás, não foram muitas. Foi senhorita que recebeu o esposo, isto é, recebeu meu pai. Terminou a juventude, e foi aí que começou a vida. Antes mamãe residiu de favor em região central da cidade, esta cidade onde nasci, mais especificamente na casa de uma irmã mais velha e refinada que se encarregou de cuidar das prendas da caçula. Até para não entediar muita minha própria memória, basta dizer que minha mãe foi mocinha bastante religiosa. A felicidade é um bom bilhete de loteria; alguns compram o próprio prêmio, outros criam a sorte todos os dias.

Nestas memórias que puxo do fundo de gaveta de objetos da imaginação, invento que passou para o folclore familiar a história de que meus pais apaixonaram-se à primeira vista. Naquele tempo as pessoas ainda tinham tempo para isto, para um simples olhar urdido. Por certo mesmo é que eles namoraram à moda antiga e acabaram por se casar na igreja do Carmo. Ao passo que meus avós paternos só recomendaram a papai que a escolhida fosse moça católica - então acertaram em cheio! -, pois, pelas fotografias que receberam, aprovaram-na como sendo de boa feição. É curioso, agora a memória não me recorda de ter ouvido em casa comentário sobre o que meus avós maternos disseram sobre meu pai. Também, não sei bem o motivo, mas nós não íamos visitá-los muito... É melhor esquecer isto; vai que houve algo nesta negociação ou, pior ainda, não aprovaram o casamento; vai saber... Não será aqui um neto que remexerá no passado de velhos avós. A bisbilhotice não convém em certos casos.

Eu fui crescendo e me formando, bem naquele pedaço da cidade onde eu encasquetei de criar os meus domínios de vida, meu feudo imaginário. É que esta região eu conheço como ninguém, ou conhecia bem, em outro tempo. Mas reconheço também nobres e súditos. De modo que admito apenas que fui soberbo príncipe, transformado em sapo por feitiço de magnífica bruxa inexorável, inacessível e inacusável.

Sei que, por prudência, deveria mudar o rumo da prosa, que pode estar chata já que ninguém nada tem que ver com lembranças dos outros, ainda mais se estas forem enfadonhas; mas, ora, as lembranças são minhas e quero falar delas... Compreenda, amiga leitora. O dia é bom e a emoção aflora, em certo sentido, sutil e tocante. A meninice é coisa tão bonita de recordar...

Bom é puxar os pensamentos mais antigos pela cabeça e reverenciar a energia e a astúcia de papai. Para se ter boa ideia, leitor, da medida do esforço para melhorar as nossas condições de bem-estar e da esperança de sucesso confiado aos filhos, meu pai, depois de anos na mesma empresa, pegou as contas do emprego e criou próprio ofício. Naquela época ele era um visionário sublime. Sua intenção era ganhar mais dinheiro para nosso conforto e patrocinar sonhos alheios; é a tal amplitude da vida... Porém, na medida em que ele só tinha tempo para o serviço maçante, convivia menos conosco. E certas melancolias, por vezes, fazem com que os sentimentos mais afáveis se estranharem, reconheço. Ainda assim, toda vez que eu me via em dificuldade, de qualquer ordem, e o procurava, ouvia dele conversa afetiva: “Meu filho,  querido filho, sempre que você precisar eu estarei aqui; conte com este seu velho pai... Daqui um abraço.”, durante toda a vida (dele) foi assim, mesmo agora.

Recordo de tradições de família. A religião, a educação de cordeirinho, a postura moral e social, a bondade e a gentileza, a complacência e a generosidade, o Galo... Ah, mas o Galo anda tão desnorteado; pobre papai! Mas são certas tradições entre tantas outras... Imaginas, caro amigo que acompanha esta crônica egocêntrica, que esta tradição foi a mim passada por meu querido pai, não é? Pois errou. Ele não passou nada, deixou tudo sempre à mostra para que quem quisesse aprender aprendesse. Eu aprendi algumas coisas, desisti de outras... Algum espírito de papai está, secretamente, em minha alma. Mas, enfim, defino-o como um homem determinado, que nos amava acima de sua própria vida. Poder-se-ia dá-lo os títulos de: Altruísta! Alma nobre! Sistemático! Exemplar!

Sei que talvez a história ficasse um pouco mais emocionante e envolvente se eu dissesse que papai era envolvido com sindicalistas corruptos ou que tinha uma amante em outra cidade; mas não. Não há registro de nada disso nos correlatos familiares. Alguns inimigos de negócios dizem o contrário, porém não ligo; é intriga!

Nada disto, senhor leitor e dona leitora, que escrevi nestas tortuosas linhas que acabastes de ler é verdade, também não é mentira; é um lugar que fica entre a imaginação e a realidade. Só as palavras chegam lá, e escrevo-as cá - algumas... É que, de repente, eu senti uma saudade danada de papai... Querido papai bússola.

Por Ricardo Novais

Santos FC, Eneacampeão do Brasil!


Robinho Santos campeão copa do brasil meninos do brasil
Robinho, Príncipe da Vila, beijando a taça da Copa do Brasil 2010. Foto: Marcos Ribolli.

A noite santástica de ontem já entrou para a história do futebol brasileiro. Ao derrotar o Vitória, da Boa Terra, e conquistar pela primeira vez a Copa do Brasil, o Santos Futebol Clube sagrou-se eneacampeão de futebol no país – igualando feitos de Flamengo e Palmeiras. A gloriosa galeria de títulos do alvinegro praiano é das mais vitoriosas dentre todos os clubes do mundo. Sim, amigo leitor-torcedor, conta-se no memorial famoso de Vila Belmiro cinco conquistas de Taça Brasil, 1961, 1962, 1963, 1964 e 1965; uma Taça Gomes Pedrosa, 1968; dois Campeonatos Brasileiros, 2002 e 2004; e este muito bem-vindo título da Copa do Brasil, 2010.

Saber que o glorioso Santos Futebol Clube é campeão nacional pela nona vez é uma sensação de prazer indescritível, tomado de um momento raro, especial de todo, que causa-me quase sentimento de avareza.

Torcedor comum sonha em ver o seu time de coração o melhor do mundo, vencedor em seus domínios, conquistando títulos e títulos, jogando o fino da bola, futebol artístico que encanta todo o país e faz vibrar contente e orgulhoso os apaixonados alvinegros das arquibancadas da vida. Mas isto é para poucos privilegiados... Ah que sorte! Há de ser Santos, sempre Santos. Motivo de todo meu riso, de minhas lágrimas e emoção... Ah que sorte, meu time é eneacampeão; e o teu?

Campanha Santista na Copa do Brasil foi espetacular, a verdadeira e autêntica Máquina de Futebol Arte. Dá-lhe Peixe! Dá-lhe Peixe! Dá-lhe Peixe!... Nove vezes Peixe!


Por Ricardo Novais