Clássico Emocionante

Incrível! Há uma meia-dúzia de leitores deste blogue; certo que quatro são parentes, um é leitor desconhecido, e o outro é... minha mãe (que é diferente de parente). Mentira, caro amigo; estou a brincar-lhe com os ânimos em segunda-feira arrastada, dia preferido para a dona aranha tecer sua teia na esquina da imaginação. Se tão feliz eu fico em receber a visita dos leitores nesta casa; vamos, sente-se, tome um café, como vai?

Ocorre, senhor leitor e dona leitora, que alguns andaram cobrando-me por aí, intimando-me pelos corredores desta valorosa sociedade, em horário sagrado de refeição matinal, sem ao menos dizer “bom dia!”, a minha empáfia de outrora. “Ora, não tens nada a dizer? Não vais dizer nada da rodada do Brasileirão de ontem? Fanfarrão de uma figa!”, foram as vozes que ouvi insurgentes das arquibancadas cotidianas. Viu a boa peça que me arranjou, Dorival?

Ah, mas também não me custa nada expedir umas magras linhas com minhas impressões do clássico de ontem. Não há de doer tanto...

Foi um duelo emocionante! O Dragão do Cerrado fez 1 a 0, o Leão rugiu. Quando todos já se preparavam para uma tragédia na lindíssima cidade de Goiânia, o time esmeraldino virou o placar. Eletrizante, sensacional! Fim de jogo no estádio Serra Dourada: Atlético de Goiás 1 x 3 Goiás de Goiás.

Time vence clássico e sai da lanterna (Ag. Estado)
Goiás vence Clássico do Cerrado e sai da lanterna. Romerito, Rei Esmeraldino, marcou 2 gols. 
Foto: Ag. Estado.


Por Ricardo Novais


Expresso da Vitória


“Um Expresso Chamado Vitória”, este é o título do livro de Alexandre Mesquita e Jefferson Almeida que conta a arrasadora trajetória do time do Vasco da Gama nas décadas de 1940 e 1950.

Imperdível! Narrado de maneira leve e própria de uma época áurea do futebol brasileiro e carioca, o livro conta com as epopéias fabulosas do Time da Colina que conquistou inúmeros troféus – sendo o maior deles o de campeão sul-americano, no Chile. Este monstruoso escrete ficou conhecido na crônica esportiva como o "Expresso da Vitória".

Editado pela iVentura, o livro será lançado oficialmente hoje, 31 de maio de 2010, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

O prefácio é do jornalista e apaixonado cruzmaltino*, Roberto Porto.

Esta obra, no entanto, não é apenas endereçada ao torcedor vascaíno; ali estão narrados histórias fantásticas de craques que foram parar em São Januário e serviram de base ao Selecionado Brasileiro na Copa do Mundo de 1950, no famoso “Maracanaço”.

Há perguntas lendárias no ambiente do futebol que nunca encontram respostas: O Vasco da Gama foi mesmo campeão carioca invicto em 1945, 1947 e 1949? Foi mesmo base da seleção vice-campeã mundial na Copa em 1950? Foi de fato o primeiro campeão do Maracanã?

Os botecos agora têm um concorrente à altura, caro torcedor. As respostas para as perguntas acima estão no livro “Um Expresso Chamado Vitória”. Muito de jornalismo esportivo, muito mais ainda de boas histórias e admiráveis lendas de um dos melhores times que floresceram nos gramados da cidade do Rio de Janeiro.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) será o local de lançamento do livro, hoje às 18 horas. Endereço: Rua Araújo Porto Alegre, 71, 11º andar, Centro, Rio de Janeiro/ RJ.


Por Ricardo Novais
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* Ratificação: O jornalista e escritor Roberto Porto é na verdade um fanático torcedor do glorioso Botafogo; e não cruzmaltino, como escrito no texto. Obrigado Alexandre, autor do livro  “Um Expresso Chamado Vitória", pela providencial correção.


Mais informações: carlos.fernando@viaescrita.com.br.


Ao mesmo bruxo

Mortos, Vivos e o Redentor por Raul Lisboa.
Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro. Foto: Raul Lisboa.

Chego com custo num horizonte longínquo, tão sutil, tão sintomático... Quero logo ver todas as paisagens de outro prumo; assim foi; tenho o ânimo insaciável, sigo então pela mesma montanha; é longo o alcance de visão... Vê-se, ao fundo, um mar espelhado que parece azul, mas é o portal de um mundo paralelo.

Percebo que é lá que está um bruxo, de aspecto sóbrio, paciente, cônscio, embora nada revele no olhar; de certo vindo daquela certa casa da Rua Cosme Velho, o mesmo homem que tanto causou impressão em Drummond; este outro que tanto provocou alento em minha velha avó da pacata cidade de Itabira. O bruxo nada fala, tem a cara dos incrédulos e mantém um sorrisinho buliçoso no canto da boca; irritante e natural. Não me aborreço de logo; reverencio aquele diabo, mas desconfio tanto dele... O seu aceno é apropriado, refinado; ele limpa o pencenê, novinho (?); calmo, ainda com irreverente e leve movimento de contração à face, finalmente, pronuncia-se à meia-voz: “Não se acanhes, desgraçado viajante; se todos os contrastes estão no homem...”.

Não tenho palavra, lembro-me daqueles versos de Drummond conjecturando a genealogia moral dos Lobo Neves e os misteriosos olhares das várias mulheres que moraram num paço logo adiante; aliado a isto, rememoro o anemicíssimo José Dias, a força movida por combustível furioso e sinistro de Vilela, a rivalidade latente do mesmo germe de decreto de Pedro e Paulo, a agudeza quase nietzschiana da Cabocla do Castello e de Marcela, os devaneios sadios de Quincas e os cientificismo doentio de doutor Bacamarte, tudo na forma de lampejos de imaginação do Conselheiro Ayres.

Sei que este homem que encontro em tão funesta montanha é um mestre, sei também que ele é cruel; sem pestanejar este velho bruxo traçará magistralmente toda minha personalidade afetada e me reduzirá a fraco verme humano. Por certo que calculará minha dificuldade de finanças e meus vícios desesperadores, onde nunca arranjarei tempo suficiente para  tragá-los. Dirá, em conclusão, que embora ainda muito moço eu já tenha vivido minha vida inteira e não há muito mais que isto; apenas o resto, e o resto é o resto.

Vem o coveiro, acho-o sorumbático, o bruxo dirige-se a ele, dá outro sorrisinho lançando uma chama irônica, quase hipócrita, e joga a reverência:

- Caro Ezequiel, que faz?

- Não sei; não sou mais um jovenzinho, nem velho... Sou pai de família! – exclama com um tanto de desprezo, próprio de quem carrega dor intensa desde cedo pela ausência de seus progenitores.

- Teus filhos têm orgulho de quê?

- De meu sucesso.

- Mas eles não têm nenhuma decepção contigo?

- Claro que sim! Peço ao bom Deus que lhes conservem bem de saúde e que sejam promissoras suas carreiras; sabe, são doutores, um de ciências jurídicas e o outro salva toda gente; mas nem sempre podem ter tudo...

- E qual a decepção afinal?

- Ora, qual; de terem nascido no Brasil.

Começa a escurecer, nem toda a paisagem do mundo devolveria luz àquela colina; e, sem o clarividente sol, um cambaleante pombo cinza sobrevoa por sobre os homens, e distraem-nos à contemplação do São João Batista. De repente, o bruxo foi-se primeiro, afastando-se sem dizer palavra, apenas o gestual denotava a metalinguagem de mármore, tão fria como as maçanetas das portas que zombam daqueles que tentam, em vão, entrar às casas, mas que, ao mesmo tempo, revela, dissimuladamente, toda a sutileza e sabor da vida.

O coveiro ainda acompanhou-me até o portão da necrópole, depois sumiu. Mas eu já estava a salvo.

Por Ricardo Novais

O Último Fla-Flu

“Tudo é Fla-Flu, o resto é paisagem”. (Nelson Rodrigues)


O velho ‘Maraca’ viu na noite de ontem o último Fla-Flu.  Quantas noites foram mais memoráveis?... E o pôr-do-sol?

Sol no Rio de Janeiro, domingo, à tarde, Maracanã – lotado! De um lado os geraldinos tricolores, do outro os geraldinos rubro-negros; é o “Clássico das Multidões”. Depois vieram outros rivais, outras torcidas de “milhões”, mas nenhum duelo é igual a um Fla-Flu naquele templo do futebol.

No dia 14 de outubro de 1951, Flamengo e Fluminense fizeram o primeiro “jogo antes do nada” da história do Maracanã. Naquele tempo, o time tricolor venceu por 1 a 0. Havia lá toda a gente... Ontem, quase 59 anos depois, poucas almas vivas e mortas testemunharam as  duas tradicionais equipes cariocas em seu último confronto neste gramado teatro de sonhos.  Sim, enfático torcedor, o último clássico antes do fenecimento de toda uma vida, vivida apenas na paixão ao esporte bretão; daqui 3 anos, os portões reabrem no mais emblemático palco de futebol da Terra, mas totalmente reformulado à pretensão de abrigar finórias instalações, padrão FIFA, visando os lucros da bola, bem redonda pela pecúnia, na Copa do Mundo de 2014.

Incrível clube das Laranjeiras e fantástico clube da Gávea, um faz parte do outro. Como o Morro Dois Irmãos, um vive e o outro respira, seja no hino seja na inveja. Irmão mais novo, o Flamengo é dissidência do Fluminense; com o amadurecimento, trilharam caminhos opostos, mas sempre tornam e se encontram... e brigam. Brigam feio! Ora; se o amor, também o ódio,  entre irmãos nada mais é que sentimento de respeito; concordas comigo, querido torcedor carioca já saudoso do velho ‘Maraca’?

Mário Filho teria saudade do “Fla-Flu da Lagoa”, Nelson Rodrigues de um Fla-Flu de 1919 ou outro qualquer onde a multidão já tenha morrido, ou quase toda ela já não mais exista. A voz da dona leitora queima minhas orelhas: "E que tens tu, desgraçado autor paulista, cá com nosso maciço e nossos bulevares?" Ó, minha querida senhora, eu só conheço as crônicas empoeiradas, as imagens de fundo de gaveta, as sensações da meninice ouvindo vozes do rádio e os arquivos de internet. Pouco para àqueles que sobreviveram ao tempo, mas bom para mim, que com o escasso imagino muito e vejo todos os mortos e sobreviventes do antológico estádio tremendo, elegantes mulheres boquiabertas, comportadas crianças a pular, e a mais extraordinária euforia Tricolor e o mais belo e notável amor Rubro-Negro.

Ouvem-se gemidos, o último suspiro, de outra criança que chora e escorrega da Geral do Maracanã – que nem é mais a mesma e jamais tornará a ser. Quer chorar também, torcedor geraldino? Pois chore! Mas mantenha esperança em glórias do incerto futuro com um de teus pés atrás. Sei que o  desanimo é grande, chutam para longe o encanecido romantismo e buscam hodierno prazer tecnológico. Da mesma maneira a tristeza é tamanha nas tribunas e nas arquibancadas, atingindo todos os apaixonados pelo Fluminense e o povo flamenguista de laço fraterno e coração sôfrego.

Maracanã colorido em duas metades: rubro-negro e tricolor. Imagem de arquivo.

Pouco importa o placar deste último Fla-Flu. Sabe-se, no entanto, que, assim como em 1951, os tricolores venceram aos rubro-negros, em duelo derradeiro. Ponto. Fechou-se a tampa do passado no Maracanã. Mas daqui começa outra história. Anseio apenas que a sorte que há de vir seja como um autêntico Fla-Flu, a arte de transformar briga em espetáculo.


Por Ricardo Novais

A Noiva Ester e a Asma Maldita

Vestido de Noiva de Ester. Imagem: Micheline Matos.

I - O Encontro

Lineu estava num café de esquina do escritório, em pé no balcão, quando viu do outro lado da calçada uma garota elegante desfilar em direção à rua XV de Novembro. Observou quase paralisado a graça daquela moça, entortou o pescoço até perder aquela deleitosa visão por causa de outra dobra de esquinas. Ficou ainda ali, parado, rememorando consigo mesmo os momentos recentes e desconhecidos. Largou a xícara, largou dos pensamentos e tornou ao ofício rotineiro que lhe carimbava a vida.

O relógio apontou 18 horas. Saiu apressado em direção à Sé com ideia de pegar um vagão não muito cheio, coisa dificílima naquela estação àquele horário. No apertado cubículo, avistou a visão graciosa daquela moça da hora do café da tarde. Era ela, a poucos metros e ao mesmo tempo tão longe. Ela saltou na estação Paraíso, não era a sua, mas ele queria descer ali. Não conseguiu, entretanto. Desvencilhando-se do aperto, chegou à porta automática para saltar na estação seguinte. Saltou na Ana Rosa e pegou a composição no sentido oposto, precipitou no pátio da Paraíso, calculou, desceu as escadas rolantes correndo, em meio à multidão, viu a garota, atirou-se no seu encalço, quase como um maluco. Tropeçou num passageiro, esbarrou numa velha, mas alcançou a menina pouco adiante. Venceu uma pequena crise de asma nesta aventura. Ficou atrás dela, na fila em desordem para adentrar em outro vagão com destino à Paulista, provavelmente.


II - A Conversa

Eram três talvez quatro estações, apenas. Calculando isto, Lineu puxou conversa:

- Que loucura a cidade, não?

- Por que está me seguindo? Não nos conhecemos, né?

Ele não sabia o que dizer, ficou pasmado. A moça percebeu o constrangimento de seu companheiro de transporte público:

- Não se preocupe, não vou chamar a polícia – disse ela sorrindo; um sorriso lindo, julgou ele. – Não estou zangada, é que sou prevenida contra assaltos ou pessoas inconvenientes...

- Perdoe-me o incômodo... Com licença... – ele ia se afastando para outro canto do vagão lotado, quando ela bradou:

- Fique! – ordenou amavelmente, e se apresentou:

- Meu nome é Ester...

- Muito prazer, o meu é Lineu.

- Certo Lineu, apenas me explique se já nos conhecemos...

Lineu não viu outra opção além esclarecer tudo, desde o início no café, contando sobre a esquina, o eventual reencontro no metrô e a inadequada perseguição àquela moça que tanto o havia impressionado desde o meio da tarde.


III - O Namoro

Passaram-se os dias. Ester é convidada ao cinema: "Não quero que você confunda as coisas, Lineu. Tenho namorado!”. No entanto, dois meses depois os convites eram aceitos e o namorado mudou.

De mãos dadas ao noivo, Ester frequentava o café onde tudo começou. Feliz, avaliava Lineu como o melhor homem do mundo. Via nele o pai de seus filhos, uma casa grande e arejada na zona sul que contrastasse com qualquer apartamento minúsculo da região central da cidade. O sentimento alegre era do mesmo modo sombrio, pois constantes eram os ataques de saúde de seu nubente. Ela tremia imaginado a viuvez precoce e seus filhos órfãos de pai.


IV - O Casamento

Tudo foi planejado como evento extraordinário. Enfim, o dia do matrimônio chegou para concretizar sonhos intensos.

A decoração do lugar escolhido aproveitava área arborizada de vasto terreno colina acima marcando a data. Exuberância, com todas aquelas mesinhas e pessoas que nunca tinham visto, todos comendo e bebendo, falando e andando com taças e copos nas mãos, felicitando a união e se escondendo, presumivelmente, do corte da gravata e do alvo sapato de salto alto.

Luxo desnecessário, só valia pela felicidade estampada na formosa face, da então noiva, agora legítima esposa. Tudo conforme o figurino, carro antigo de motor beberrão para trazer a nubente à porta da igreja e outro automóvel enfeitado arrastando latas vazias. Convidados saudando aos noivos, arremessando-lhes arroz cru e acenando-lhes em bons votos. Mau-gosto, dona leitora? Pois saiba que este evento foi a celebração do arremate de sonho de amor dos dois pombinhos. O contra-saldo foi a falta de novidade nas núpcias.


V - Os Casados

O primeiro dia de casados amanheceu. O ar do chalé de bodas era fresco, agradável, mas Lineu sente algo estranho. Levanta-se da cama, procura a mulher, derruba uma cadeira, vai à varanda, não encontra sua esposa. Torna dentro do quarto, olha em volta, sem compreender, imagina que algo grave acontecia. Fulminante foi o ataque, faltou-lhe ar, como um louco, ele corre à janela, porém tomba ali mesmo. Ainda vê a mulher chegar com a cesta de frutas e flores nas mãos, desesperada tentando devolver-lhe à vida... Tarde demais. Lá dentro do quarto a recém-viúva olha o cadáver do marido, histérica, em cima da cama rasga o vestido de noiva.


Por Ricardo Novais

Um Vôo com Destino Pressurizado

Sala de embarque do Aeroporto de Congonhas/SP. Não havia ninguém aguardando...

Era um vôo Rio - São Paulo. Da janela via-se a Baía de Guanabara, lambida pelo sol bege, de águas calmas, com bocal desdentado e ainda assim de belo sorriso. A distração é tanto portentosa e tanto singela. Fugaz e ordinária, incrível e desprezível, viagem entre metrópoles... Quantos a fazem? Quantos diminuem esta distância tão representativa? Quantas histórias florescem sob seus telhados, sob o asfalto limpo e as calçadas imundas, as esquinas tangentes e também de tanta descrença absoluta...

Tudo que era pouco, de repente, virou em outros ventos. Na poltrona ao lado senta-se a mais enigmática moça minha apreciada de sonhos. Não foi imaginação, e nada decorrente de entusiasmo. Tudo indicou apenas um simples papo entre dois viajantes desconhecidos. Conversa que puxa outra, turbulência que gera afirmação sutilmente vazia, uma nuvem que passou naquela tarde ensolarada e dissolveu-se junto com os pensamentos. Nada mais, nada além de agradável passatempo de excursionista do tédio em cabina pressurizada.

No entanto, após o desembarque, a despedida de minha companheira de viagem, o seu cinematográfico sumiço naquela multidão de rostos céleres do saguão central, tendo apenas como testemunha uma impessoal plataforma de passageiros que aguardam ansiosos aviões dos cantos mais remotos e outros que esperam aeronaves que aterrissam precipitadas e logo decolam novamente; a hora seguinte pareceu-me continuar sem terminação. Por fim, cheguei à minha casa, andei pela varanda, sentei num velho banco, levantei poucos minutos depois, fui à cozinha, parei diante da geladeira e das latas de conserva, olhando admirado tudo aquilo que já por mim há tempos era conhecido. O vôo tinha sido ainda agorinha... Mas parecia-me já anos a fio. Senti-me triste. Imediatamente preso por lembrança variante. Que tarde tão recente passada e por demais ausente da noite presente! Permaneci vago de coragem.

Não recrimines, piloto de vôos buliçosos, este coração aéreo que é diferente de outras pontes deste mundo. Trajeto incrível! Julgo esta a maior viagem brasileira... E é tão curto este percurso que reaviva anseios, ao modo de grandes turbulências. Para mim não é necessário mais que uma única tarde para que o vento adentre com força aos cubículos pressurizados mais trancados.

Contudo, abdiquei deste pensamento deleitoso; fechei cuidadosamente a porta da geladeira, o frescor da maçaneta da porta deixou uma cicatriz de saudade em minhas mãos contentes de há pouco.

Deveras! Cochilo adorável a lembrança daquele vôo. No decorrer dos dias, a recordação fugia-me, aos pouquinhos... Nada mais eu via no aeroporto, nenhuma mensagem escrita  em painéis de horários das aterrissagens e decolagens feitas por aeronaves indeterminadas que poderiam me devolver alguma esperança, nenhum recado surpreendente no balcão de check in, ninguém me aguardava na sala de espera; apenas aquela desgraçada plataforma impessoal percebia meus cálculos: “Faz uma semana daquele dia... faz quinze dias... faz um mês daquela tarde! E pouco a pouco fui me esquecendo da fisionomia daquela minha companheira de viagem, confundindo com a figura de outras moças, embaralhando a memória com outras conversas que, evidentemente, eram sem o mesmo sabor. O baixo teor de oxigênio em minha corrente sanguínea foi o saldo de uma hopoxemia, mas de fato era o coração que me apertava em incomensurável enigma e saudade... Que agitação tão nostálgica, um deleite!


Por Ricardo Novais

Robinho, Príncipe da Vila

"Fica, Robinho!" Foto: Caio Guatelli/Folha Imagem.

Todo reino tem lá seus castelos, suas cortes com reis, príncipes, duques, condes, viscondes e arquiduques e demais fidalgos, todos com seus criados e pajens, protegidos por cavaleiros, guerreiros e arqueiros, todos perfazendo fortaleza inexpugnável.

No castelo da Vila Belmiro há monarca eterno: é claro que estou falando do soberano Pelé, o Rei do Futebol. Mas naquele mundialmente famoso reino nasceu também um certo príncipe, único, sublime, que encanta pela inteligência e emociona pela bravura: ele é Robinho, o Príncipe da Vila.

Sim, tem razão senhor torcedor da geração X. Em terra de rei que brilha como sol absoluto (não confundir com o absolutismo feito por boleiros franceses), houve império de muitos e muitos príncipes extraordinários num passado glorioso; é verdade! Época áurea do futebol mágico e romântico, já vai tempo... No entanto, Robinho foi enviado à corte coberta com grama pelas mãos de um Messias. Foi Giovanni, o G-10, a maior influência deste fidalgo jogador; só isto já bastava para nada mais questionar sobre a valorosa entrada deste príncipe entre outros perpétuos homens heróicos daquele nobre salão. Mas além de tudo, são as inúmeras batalhas vencidas pelo genial Robinho que o consagram.

Lembro-me como se fosse hoje. Era um domingo, final de Campeonato Brasileiro. O dia era  15 de dezembro de 2002, mas poderia ser qualquer outro; não fosse o fato de que o Santos não tinha uma conquista importante fazia 18 anos anos e o adversário era o Corinthians, sempre inimigo e traiçoeiro. Das arquibancadas do Morumbi naquela tarde via-se, embora a longo alcance de visão, Robinho pegar a bola na intermediária esquerda de ataque, carregá-la como se ela fosse uma pequenina criança e os pés fossem delicadas mãos que a tratavam com luvas de pelica, veio o zagueiro-lateral corintiano, surpreso, assustado – digo tudo, vá! – Rogério tinha temor nos olhos, e, observando seu algoz, quase paralisado, tentando afastar-se como um rato acuado, viu à frente... as inesquecíveis pedalas.

Robinho pedalou oito vezes na frente de Rogério, entrou na área e foi derrubado. Pênalti! Foi para bola, encarou Doni (este mesmo que vai à Copa da África mês que vem), cochichou algo carinhoso ao escudo pregado na armadura santista e... gol! Aliado a este lance mágico, ele também criou as jogadas dos outros gols do Santos naquele jogo, e que levou a sofrida torcida peixeira a gritar uma frase de alívio presa à garganta há tempos: "É campeão!". Dois anos depois  deste dia glorioso, Robinho novamente carregava o título Brasileiro, o de Bicampeão, para a galeria de triunfos da realeza de Vila Belmiro.

Ontem, pela semi-finalíssima da Copa do Brasil, contra o bravo Grêmio Porto-alegrense – aliás, onde estão aqueles cronistas gaúchos com quilômetros de língua? Amarem-na com fita azul! – o Santos venceu por 3 a 1. Como eu disse antes, a corte santista é audaciosa; o ‘novo messias’ Ganso fez golaço, e o sempre excelente Wesley, revelado na Vila Famosa, fez outro grande gol de habilidade e velocidade. Robinho, demonstrando incrível categoria, encobriu o goleiro gremista com mágica e foi saudar seu herdeiro que estava entre súditos. A torcida, por sua vez, balançou com afinco as flâmulas alvinegras, os choros de alegria deram lugar a um coro: "Não  vá, não volte à Europa, querido príncipe! Fique, Robinho!" Conquanto que o arauto declarou: "Que noite memorável!".

Façamos um trato, amigo torcedor. Para que este afetado autor recupere-se de tanta emoção,  o texto termina por aqui e em troca ficaste, em vídeo abaixo, com lances do futebol mais magnífico jogado hoje no Brasil.

Melhor, não é mesmo? De modo que a seguir algumas imagens de uma batalha vencida pelo implacável Príncipe da Vila e que levou o Santos FC à sua primeira final de Copa do Brasil:



Por Ricardo Novais

"Marchem, Companheiros, Marchem!"...

Dilma participa de evento em Brasília   Foto: Roberto Stuckert Filho/Divulgação
Candidata Dilma na Marcha dos Prefeitos, hoje, em Brasília. Foto: Roberto Stuckert Filho.


Na Marcha dos Prefeitos, organizada hoje, em Brasília, houve uma curiosa polêmica – curiosa para dizer o mínimo, pois é temerosa (sem trocadilhos). Tratou-se de um vídeo que descreve o calvário de um prefeito em meio à burocracia federal na busca de verbas para o seu município. Isto apenas bastaria para deixar desconfortável qualquer político brasileiro, no entanto, a controvérsia assustadora ocorreu pela participação dos presidenciáveis; em particular, da candidata à presidência da situação, Dilma Rousseff (PT).

Enquanto que os outros aspirantes à cadeira federal queriam ver o vídeo – e consta que chegaram mesmo a reclamar a mostra do material –, a  candidata do ‘lulismo’ deu espécie de ultimato censurando o filme; que na verdade é uma animação em  HQ: “A história do pires na mão”. Dilma teria dito aos seus assessores: “Se vocês exibirem isto eu não vou participar do encontro!”. No final das contas, a Confederação Nacional dos Municípios, organizadora da marcha, desistiu de exibir o vídeo.


Que mal há nesta história em quadrinhos? Ora! Se apenas demonstra, de modo até singelo, como a burocracia assola tão 'democrática' república atravancando, impiedosamente, o trabalho de homens que desejam alguma melhoria a este país. Não censures, portanto, dona positivista, os defeitos do processo federal em causa própria; a afetação é coisa feia e em nada agrada o ânimo do povo.


Perceba, amigo (e)leitor, aí está a minha temerosa suspeita. Caso a dama da COLINA e da VAR Palmares for eleita, podemos ter uma nova “Caterina di Médici" dos trópicos, mas agnóstica e 'lulista'; claro.


Por Ricardo Novais

Lula é um Bom Companheiro

Lula conversa com Mahmoud Ahmadinejad durante a reunião, em Teerã Foto: Reuters
Lula destilando diplomacia em Teerã. Foto: Reuters. 


Diplomacia Brasileira
E o Enriquecimento de Urânio

Não, eu não sou diplomata, professor de tratados internacionais e muito menos engenheiro químico. Entretanto, causou-me muita surpresa saber que o especialista em energia nuclear do governo Lula é o doutor José de Alencar. Eu gosto do o vice-presidente da república, sinto sua ‘mineirice sagrada’, sinto também sua dor, admiro deveras a força com que ele enfrenta as adversidades e moléstias que acometeram-lhe nos últimos tempos; sou-lhe simpático em seu gestual humilde e simplório orando a Nosso Senhor do Vale do Rio Doce.

Grande maquinista político! Alencar tem como pensamento que a bomba nuclear deve sim ser feita, contanto que seja para fins pacíficos. Difícil criticá-lo, afinal, de 20%, ele é um perito no assunto; não? Além de que é um homem extremamente pacato, sereno, manso como um boi de curral mineiro – embora as vacas das fazendas de Minas Gerais gerem outro tipo de energia, talvez até mais limpa.

O fato é que por causa do triunfo da diplomacia brasileira, em conjunto com a discrição dos também pacatos turcos, o Irã está muito mais perto de construir a tão temível bomba atômica do que estava antes. Mahmoud Ahmadinejad, líder de pouco gosto aos debates e mais afeito às afetações pessoais, conta com a finíssima ajuda do Brasil para assustar aos povos vizinhos e também aqueles outros à milhas de distância, já que o artefato nuclear tem precisão cirúrgica de destruição e aniquilação de humanos.

Lula parecia crer que a comunidade mundial aplaudiria o circo que ele armou, no entanto as representações de muitos governos de nações importantes o ridicularizaram por meio da imprensa internacional. A Turquia, rancorosa do EUA por estes serem unidos à Israel e querendo se vingar dos países da Europa que não a aceitam na comunidade da União Européia, sentiu na pele a reação de descrença e sarcasmo com a negociação amistosa com o Irã.

Este artifício é muito usado nos governos populistas. Neste caso em tela, a retórica ‘lulista’ que dissimula verdades não obteve as mesmas ‘glórias’ de popularidade que alcança aqui no nosso ambiente doméstico. Os estrangeiros reagiram muito mal ao patético acordo de manipulação nuclear; diferentemente do povo que vive em terras ‘brazucas’, acostumados às manobras balofas deste governo. Não seria muito afirmar que Lula e seus calmos, porém valorosos, ‘cavaleiros do apocalipse’, doutor José de Alencar e os plácidos turcos, deixaram o mundo mais perto de uma guerra nuclear.

Meia hora depois de fechado a negociação entre Brasil, Turquia e Irã, o governo brasileiro telefonava à Dilma Rousseff, sua candidata à sucessão presidencial, oferecendo mais material ao palanque, desta vez, eleitoral; enquanto que os pacatos turcos sorriam discretamente e olhavam para todos lados à procura de algum muçulmano suspeito; já o ditador ‘boa-praça’ do Irã escreveu na ata do inocente combinado diplomático os seguintes  dizeres: “Processo de enriquecimento: Irã, 3,5%; urânio, mais de 90%. Protocolo de arquivo: U-235”.


Por Ricardo Novais

Meu Pequeno Cruzeirense, por Marco Túlio


Ontem na Bienal de Minas Gerais lançou-se o magnífico livro do Galo, "Meu Pequeno Atleticano"; hoje é a vez do arquirrival Cruzeiro entrar nos gramados da literatura infanto-juvenil. "Meu Pequeno Cruzeirense" é um livro escrito, muito bem escrito  por sinal, pelo músico Marco Túlio, da banda pop mineira Jota Quest. A editora é a Belas Artes no mesmo projeto de literatura voltado ao público de futebol com mote em grandes clubes brasileiros. 

Noite de autógrafos às 19 horas de hoje, na estante da Belas-Letras na Bienal do Livro de Minas Gerais, em Belo Horizonte. É a Raposa e suas 'páginas heróicas e imortais'.


Por Ricardo Novais

Dio Está Morto!

Imagem de divulgação.

Nos anos oitenta do século passado eu era criança. Apenas na segunda metade dos anos noventa ouvi pela primeira vez "Heaven and Hell", numa rádio de rock já extinta, com um baixote de amídalas de aço à frente da lendária banda Black Sabbath. Creio que fosse um projeto de Ronnie James Dio relembrando tempos passados... Anos depois, rondando por uma loja bem ordinária da Galeria do Rock, em São Paulo, comprei quase que sem querer um disco conceitual maravilhoso, "Magica", de 2000. Pronto, mais um admirador do 'pequeno demônio' enfrentando a insanidade. Nítida a influência de seu velho companheiro de Rainbow, o guitarrista Ritchie Blackmore, neste trabalho; o arranjo do álbum foi do fantástico músico Craig Goldy, auxiliado pelo baixista Jimmy Bain e pelo incrível tecladista Scott Warren.


Ronnie James Dio, foi vocalista e letrista do Elf, da maravilhosa banda hard Rainbow, do Black Sabbath e do Heaven And Hell – projeto este de criação dos integrantes do Sabbath. Um câncer estomacal levou o cantor baixote. Sim, de pequena estatura física, mas de voz monstruosa e de caráter gigante. Escrevo este texto porque sinto que o tempo passa com crueldade. Dio não é da mesma geração que a minha, mas ele foi mesmo atemporal. O heavy/hard não será o mesmo sem ele. O vozeirão visceral e clássico fará muita falta nos palcos roqueiros.


Além da importância inigualável de Dio para a música, o artista tinha senso social. Foi dele a concepção do Hear n’ Aid, We’re stars”, que visava combater a fome na África. Ele reunia amigos, fãs, críticos, todos tinham carinho por aquele homem que sentia a dor alheia. Era de sua personalidade, generoso e cônscio.


Em 1983 foi lançado um dos maiores discos da história do heavy metal, "Holy Diver". O guitarrista, sempre hard, Vivian Campbell estava lá para forjar o som pesado característico da banda que aliou técnica pavimentada de teclados (depois muito utilizadas por grupos de heavy metal melódico), excelente conjunto de base feito por baixo e bateria, tudo sendo incorporado à extraordinária energia que emanava do âmago da alma de Ronnie James Dio.

"Holy Diver" é um álbum clássico, a música tema é sensacional, uma obra-prima em todos os sentidos... Dio rulez (Mob Rules)!




O sinal característico do heavy metal foi popularizado por Ronnie James Dio. Era um gesto que contrafazia o sinal de Ozzy Osbourne no Black Sabbath. Para diferenciar os apelos de paz de seu antecessor, Dio lembrou-se do “moloch”, gesto que sua avó católica fazia para espantar mau-olhado. Virou ícone de bangers e roqueiros de todo o mundo.

É... Polêmica à parte, Dio foi muito melhor que Ozzy. Além de excepcional letrista, aquele ‘pequeno demônio’ foi mesmo o maior front man do hard/heavy em todos os tempos.

Sempre me lembrarei daquele dia em que ouvi pela primeira vez os assombrosos acordes de “Heaven and Hell”. Descanse em paz, 'deus do metal'!



Por Ricardo Novais

Meu Pequeno Atleticano, por Wilson Sideral


"Meu Pequeno Atleticano" é um livro escrito pelo músico e torcedor fanático do Clube Atlético Mineiro, Wilson Sideral. É um lançamento da editora Belas Artes no projeto de literatura infanto-juvenil voltada para o público de futebol com mote nos grandes clubes brasileiros. No entanto, mesmo aquele que não aprecie tanto o esporte ou não torça para o Galo ficará encantado pela história singela e emocionate narrada por Sideral.

A noite de autógrafos é hoje, às 19 horas, na estante da Belas-Letras na Bienal do Livro de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Vale a pena!


Por Ricardo Novais

Reflexão do Camundongo

Imagem do Site: Ciência Portugal.

Hoje de manhã, andando pela rua, vi do outro lado da calçada uma moça belíssima. Meus pensamentos, que até então eram esparsos e vazios de novidade, voltaram-se para àquela figura agradável e que enleaste minhas primeiras horas do dia. De modo que fiquei, em certa altura, admirando o desenho dela à calçada, e esta ao lado do muro escolar próximo ao ponto de ônibus e à estação do metrô.

Se eu obedecesse ao prazer de meus pensamentos, ficaria no outro, sem nunca ter iniciado este post. Mas não há lembrança que não se sobreponha à outra, se esta for menos agradável. E esta é. Sendo assim, meus olhos viram, à distância pouca e entre as máquinas de outro homem, uma manchete de jornal online: “Cientistas Criam Vida Inteligente”. Foi isto que me fez esquecer a bela moça que andava elegante e despretensiosamente pela calçada oposta à minha.

Maldito gênio matinal que me tirou memórias deleitosas!... Fui então à minha máquina tomar conhecimento da notícia científica com maiores pormenores. Tratava-se de afirmação polêmica de médico italiano e seu colega norte-americano cientista de novas mídias, fundamentados por filosofia de Königsberg, de arriscada experiência biológica que promove a capacidade de um ser, de vida natural, em armazenar todas as informações existentes no mundo, usá-las e comunicá-las com recursos céleres.

O jornalista que escreveu o artigo, por certo tão preparado quanto os que lêem tais notícias, expunha que a Igreja Católica manifestou-se contrária a tal manipulação genética e que a classe política internacional é avessa ao conhecimento geral. Mas foi a declaração do rato, cobaia no experimento de criação da vida mecânica baseada na vida natural com capacidade de guardar dados, que causou a maior controvérsia. Verídico, leitor; não foi uma declaração oral, mas ocular. Havia uma fotografia abaixo da manchete e ao lado do texto, “Cientistas Criam Vida Inteligente”, onde se podia perceber toda a reflexão do camundongo. Verdade que as fotos não falam, talvez nem seja aptidão dos camundongos a organização cerebral; entretanto, via-se nos olhos arredondados e profundos do calunga a meditação de especialista em ciência e em opiniões tecnológicas.

Eis qual foi o solilóquio do rato:

“Este meu dirigente sofista quer criar vida... E inteligente! Estais a brincar de Deus. Meu querido diretor não se importa com pudores religiosos nem morais. Ousado és tu, tenta criar vida humana a partir de meus poucos esforços intelectuais... Clona-me, portanto. Não há de ser nada. Enquanto estudas teus experimentos, vou ajuizando que teu império não vale muito; sou eu quem me alimento de teus inventos quando estes forem tão-só lixo. Sou eu o protozoário que transmitirá tal parasita ao hospedeiro intermediário para que no futuro chegue ao hospedeiro definitivo. Além de que não tenho tuas angústias, amigo cientista, nem tuas implicações éticas, muito menos teu ‘papel de Deus’ criador da vida clarividente estimando (in)sensivelmente quantos fetos, ou bebês, defeituosos serão descartados na disputa do pioneirismo da clonagem existencial de ser arauto de todas as notícias da Terra – é de teu ofício, senhor, esta linha de montagem industrial... Fosse de meu encargo este experimento, eu o faria na tentativa de estabelecer conservada a ordem universal, como já existe, assim prolongaria também o tempo de modo a atingir teu objetivo de acumular e processar todo o conhecimento ungido sem nada perder-se no processo. Mas nunca como tu, cientista de razão pura, ambicionando criar tal antropocêntrica enciclopédia de acessos ultra celerados.”

Vi esta imaginação na imagem, nem tão grande nem tão curta, daquele camundongo que apareceu em artigo de jornal editado pela internet. A própria reflexão resignada apareceu nas retinas dele, pouco cáusticas e mais sinceras; pobre diabo! Não pude ver-lhe o gesto na fotografia, nem ouvir-lhe palavra ou cogitar-lhe outro julgamento; apenas pude ler-lhe os olhos arredondados e profundos.

Eu ri do rato, ele também riu de mim. Depois fui ter em outras coisas, outras figuras de moças belíssimas, outros pensamentos esparsos, enfim, fui cuidar da vida; vida esta tão celerada que consta já sofrer de ‘síndrome da fadiga da informação’. Maldição de 'Weil'? Ou será apenas a ação natural do 'toxoplasma gongii'? Aquele camundongo de ofício cobaia nada mais pode dizer; é que assim que ele alcançou a natural liberdade, tornou logo a antigo litígio com um felino, certamente hospedeiro intermediário, já seu conhecido.


Por Ricardo Novais

Convocados à Copa da África

A convocação de Dunga, nem os Irmãos Grimm teriam tanto 'comprometimento'...

Hoje o Brasil inteiro acompanhou o ato prólogo do calvário 'verde amarelo' no Mundial da África. Uma comitiva de cartolas anunciou os 23 ‘gladiadores’ que vão à ‘batalha’ da Copa. Pouco depois apareceu nosso ‘comandante de guerra’ com um discurso balofo de abnegado patriota onde, visivelmente, desconhecia os fatos históricos que levantou sobre ditadura e escravidão, parecendo-me mais uma tentativa desesperada de justificar a pouca qualidade técnica dos jogadores que ele levará ao Mundial. 


Irritado como sempre, pose altiva e olhar malicioso, Dunga respondeu a um batalhão de questionamentos dos jornalistas boquiabertos presentes à entrevista coletiva, que representaram, até certo ponto, as expectativas frustradas da torcida brasileira. Decepção, está foi a sensação mais captada no twitter, em fóruns de discussão esportiva, em rodas de escritórios, no café da esquina e em balcões de fábricas.


Eu cresci ouvindo que futebol era alegria e prazer no esporte. Para jogar na Seleção tinha que ter talento, amor à camisa e, acima de tudo, viver boa fase futebolística. "Craque tem que jogar é Copa do Mundo!", diriam os sábios cronistas de antigamente. Com o treinador Dunga a coisa não é bem assim; talvez por ignorância ou por pura arrogância, sabe-se lá, ele preferiu não levar o povo para torcer junto lá na África. Desde 1994, época da Seleção campeã que utilizava o pragmático esquema tático de Parreira, o 'escrete canarinho' subjuga o futebol arte para privilegiar a competitividade e um tal de "comprometimento" – palavra da moda reinventada por Dunga. Fico aqui pensando com minhas figurinhas de álbum jaz inutilizadas pela desilusão: a dona Mariquinha, secretária do doutor Pafúncio, poderia muito bem ser selecionada para jogar na Copa;  ela nada entende de futebol, mas tem um comprometimento incrível com o trabalho...


Na entrevista coletiva de hoje à tarde, o técnico da Seleção que vai à Copa mês que vem ressaltou a importância deste ‘comprometimento’, refutou a arte dos ‘Meninos da Vila’ e não convocou a genialidade de Ronaldinho Gaúcho – ouviu “Zangado”, esqueceu-se de um gênio do futebol! – e ainda, demonstrando ser mesmo rancoroso, acusou a torto e a direito de  que estão fazendo lobby para levar este ou aquele jogador olvidado em sua escalação.


Adriano, presente em muitas escolhas de Dunga, na vez derradeira não foi chamado. O ‘imperador’ chorou ao saber da notícia. Foi um choque, de fato. O comandante, auxiliado por seu fiel escudeiro Jorginho, também sempre muito simpático, e suas ferraduras, digo, chuteiras, disse ter escolhido Grafite para o lugar do atacante rubro-negro. Poderia ter levado então Pato, do Milan, Fred, do Flu, ou Tardelli, do Galo, que são mais técnicos, ou até mesmo Ronaldo, que, embora acima do peso, tem muito mais qualidade que o selecionado para ser o reserva de Luis Fabiano. Mas não. Com licença da amiga senhora leitora, faço até trocadilho tolo dizendo que esta Seleção pode ter Grafite 'rabiscando' na Copa... Desculpe, que vergonha! É que se isto lhe parece muito cruel, apaixonado torcedor, é devido ao meu afetado nervosismo com este “Zangado” – ops! Digo, estou empiricamente zangado com o amável Dunga. 


Resta-nos agora torcer... No entanto, quem quiser torcer com algum prazer ao futebol terá de assistir aos jogos da Espanha, da Holanda, da Argentina... Da Argentina? Ah, não! Aí já é demais.


Lista dos 23 jogadores convocados por Dunga:


Goleiros: Júlio César (Inter de Milão), Gomes (Tottenham), Doni (Roma);


Defensores: Maicon (Inter de Milão), Daniel Alves (Barcelona), Michel Bastos (Lyon), Gilberto (Cruzeiro), Lúcio (Inter de Milão), Juan (Roma), Luisão (Benfica), Thiago Silva (AC Milan);


Meio-campistas: Felipe Melo (Juventus), Gilberto Silva (Panathinaikos), Ramires (Benfica), Elano (Galatasaray), Kaká (Real Madrid), Josué (Wolfsburgo), Julio Baptista (Roma), Kleberson (Flamengo);


Atacantes: Robinho (Santos), Luis Fabiano (Sevilha), Nilmar (Villarreal), Grafite (Wolfsburgo).


Perceba, senhor torcedor, não há nesta lista nada de Ganso, nada de Pato, nada de Galo... Meu finado tio da zona portuária diria: "Deu asno, na cabeça!



Por Ricardo Novais